Mulheres, por que lutamos?

Mulheres, por que lutamos?

publicado por Paula (Prem Nigama)

Em tempos da efervescente e incessante luta pelo respeito e ampliação dos direitos das mulheres, estava eu numa roda de ideias com os temas em questão bailando pelo salão, até que um dos presentes levanta a mão e expõe:   

 

"Não entendo a luta de vocês, não percebo essa tão falada diferença salarial entre homens e mulheres. Além do mais, estupro e assédio já são crimes, portanto não sei pelo que vocês lutam.”

O comentário vem como um meteoro, abrindo um enorme abismo de repudio e indignação.

Como assim não percebe a diferença salarial? Como assim estupro e assédio já são crimes, e isso basta?

Como se o fato de tipificar uma conduta como criminosa bastasse para tais práticas não acontecerem. Nenhum agressor pensa: “Nossa, quero assediar aquela mulher! Ah, mas é crime, né?! Então, não vou, eu cumpro a Lei!”.

Não, ao contrário, tais condutas continuam acontecendo, a criminalização acaba, em sua maioria, servindo apenas como punição de algo que já aconteceu, para remediar um mau feito, é sabido que estar tipificado em Lei pouco coíbe ou evita a conduta, apesar desta ser uma de suas funções.

E o questionamento continuava…“Para que vocês lutam?”

Realmente, Estupro, Assédio, Agressão, Homicídio são condutas já criminalizadas, para estas exigimos justiça e aplicação da Lei com vigor.

Nossa luta vai bem além disso, nossa Luta luta por tantas outras condutas abusivas acobertadas pelo véu da normalidade, que não são crimes, mas são prejudiciais e ofensivas tanto quanto:

Deixar de contratar uma mulher porque ela pode engravidar e entrar em licença maternidade não é crime, mas é absurdo e acontece todos os dias.

Gritar no meio da rua que uma mulher é “gostosa”, não é crime, mas é abusivo.

Olhar para uma mulher de maneira lasciva, não é crime, mas é constrangedor e incômodo.

Sugerir que mulher quando obtém um cargo de destaque o consegue por ter prestado favores sexuais aos seus superiores, e não por competência, não é crime, mas é maledicente.

Dizer que uma mulher é fácil, que usa roupa insinuante e que é meio safada porque gosta de sexo e, consequentemente, torna-se "meio" culpada pelas agressões e violência que sofre, não é crime, mas é desumano.

Justificar a conduta do agressor baseada na conduta da vítima não é crime, mas é baixo e torpe.

Lutamos para diminuir os obstáculos galgados pelas mulheres, para nos colocarmos em pé de igualdade de direitos e pela proteção real desses direitos.

Lutamos mais ainda para mudar a cultura do achar natural fazer piadas e apontar uma mulher como um pedaço de carne, julgá-la pela roupa que veste, pelo número de parceiros que tem ou pelo modo que norteia sua vida sexual.

Nossa luta é contra essa mentalidade vil que não só aceita, mas contribui para que mulheres sejam apedrejadas moralmente sem nada fazer, vitimizando culpados, procurando um motivo plausível para práticas monstruosas, e pior, culpando a vítima por ter motivado a conduta atroz do seu algoz.

Nossa luta vai muito além de engrossar o Código Penal, nossa luta é para mudar mentalidades como esta, que vivem num mundo fictício, tendo plena certeza de que tudo vai bem, que não há violência contra a mulher, que não há diferença salarial, que simplesmente ignora, por desconhecimento ou descaso, o fato de que uma mulher é estuprada a cada três horas e que a cada hora e meia uma de nós é assassinada pelo seu companheiro.

Se cobrir com o manto da Lei e empunhar a legislação em riste, aceitando e vomitando “já é CRIME” pode conformar a muitos, mas não deixa de ser uma postura covarde que só faz fortalecer a cultura de falta de respeito pela mulher. Nossa luta é para tornar a mulher soberana da sua vontade, assumindo de vez seu espaço e assim estampando no mundo o seu valor como MULHER!

Paula (Prem Nigama)
Especialista em Mulheres e Casais, é autora do ebook Tantra a Dois. Passou pelas principais escolas de Tantra do Brasil, ganhando experiência em facilitação do autoconhecimento e expressão do que vibra o coração.Advogada, deixou o mundo corporativo para mergulhar numa jornada de autoconhecimento através do [...]

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