Tantra em Salvador: massagem e meditação redefinem prazer sexual

Tantra em Salvador: massagem e meditação redefinem prazer sexual

publicado por Alessandra Oliveira

UOL

com Prandhara Prem (Renée)

Quando ainda tentava regular minha respiração, senti os primeiros toques. O terapeuta Rajan Irineu usava apenas a ponta dos dedos para percorrer toda a extensão do meu corpo nu. Me deitei de frente, de lado, de costas – sempre respondendo ao seu comando sutil. Passado o primeiro nível da massagem tântrica, chamado de Sensitive, os movimentos se concentraram, prioritariamente, na genitália, contando com auxílio de luvas, óleo vegetal e um estimulador clitoriano. No segundo estágio, ao qual se dá o merecido nome de Êxtase total, aconteceram os orgasmos intensos e contínuos. Mas não se engane ao primeiro olhar: por mais que pareça o contrário, essa descrição nada tem de sexual. A tradição oriental do tantra trata todo o corpo como templo e potencial fonte de prazer, que pode ser ativada através da prática dos sentidos.  

“Na nossa cultura, o orgasmo se tornou algo totalmente genitalizado. Sendo que, na verdade, ele é um reflexo neuromuscular, ou seja, envolve nervos e músculos. Como todo o nosso corpo tem nervos e músculos, ele todo é orgástico, tem potência de sensações”, sinaliza Rajan, logo antes de começarmos a sessão na casa TantrAmor, no Rio Vermelho. 

A conversa pré-massagem  é um passo fundamental do atendimento, visto que as atividades tântricas se autoconfiguram terapias que curam traumas e bloqueios, que, embora acreditemos ter superado, ainda podem estar gravados na memória corporal. A etapa inicial da Sensitive funciona como “reeducação sensorial, acordando o corpo e sua bioeletricidade [energia física  que nos causa, por exemplo, uma espécie de choque ao bater o cotovelo]”, explica Rajan. 

O aumento da sensibilidade de Marcela [nome fictício], 53,  não o deixa mentir. Ela se diverte ao contar sobre uma experiência recente na academia, onde um aparelho vibratório para os músculos a fez sentir “um prazer como se o corpo estivesse reagindo com uma espécie de excitação”.

A procura pelo tantra, em 2018, veio quando Marcela estava “fechada por inteira para o mundo”. O processo de introspecção foi resultado da criação familiar conservadora, um histórico de rejeição e, por fim, a interrupção de duas gestações. Seu corpo também passou por intensas transformações há um ano. Com sua chegada ao climatério [fase de transição feminina do período reprodutivo para o não reprodutivo], teve ressecamento e fraqueza da musculatura vaginal, baixa de hormônios e aparecimento de ondas de calor. Após as  sessões, porém, os sintomas desapareceram, fazendo a felicidade da sua ginecologista. 

Tantos resultados não vieram somente com a Sensitive. É no  Êxtase total que as sensações se intensificam. As contrações musculares geram movimentos incontroláveis e formigamento intenso nas mãos, a ponto de enrijecê-las. Depois do terceiro orgasmo prolongado – terapêutico, como chamam – comecei a sentir exaustão. Talvez seja falta de prática.

Respiração, movimento e som

Treino, diga-se de passagem, é crucial. O tantra só é alcançado de forma vivencial. O corpo precisa se acostumar aos novos patamares de sensibilidade antes de chegar aos níveis seguintes da massagem. No terceiro, as manobras são focadas na Yoni  [“vagina”, em sânscrito] ou no Lingam [“pênis”, em sânscrito]. No quarto e último, chamado de G-spot ou P-spot,  há toque no ponto G e na próstata, respectivamente.  Em se tratando de um processo, porém, nem sempre é possível atingir os níveis mais avançados. 

Independentemente da etapa, a prática termina com a Integração, onde são dados 10 minutos para o corpo relaxar após a excitação extrema. Ao abrir os olhos no final, a sensação é de embriaguez. Isso acontece, segundo Rajan, porque a massagem nos leva a um “estado alterado da consciência”. 

Puro êxtase

Para que se consiga aproveitar por completo a experiência, três pilares são essenciais no tantra: respiração, movimento e som.

PRANDHARA PREM E A PSICÓLOGA ANNA CAROLINA, QUE LEVOU O TANTRA PARA O DIA A DIA | FOTO: RAPHAËL MÜLLER / AG. A TARDE

Para que se consiga aproveitar por completo a experiência, três pilares são essenciais: respiração, movimento e som. Durante a sessão, é preciso estar sempre atento ao encher e esvaziar dos pulmões e não reprimir nenhum movimento ou som proveniente dos toques. Já adianto que não é tarefa fácil. Para Rajan, a culpa é da nossa criação ocidental para o externo. “Principalmente no caso das mulheres, que, nessa obrigação de proporcionar prazer e servir, acabam esquecendo de si”, avaliou. Talvez por isso a ligeira maioria da clientela seja composta por mulheres. 

Quando há tanta repressão, qualquer nova descoberta é libertadora. Já ao fim da primeira sessão, Marcela teve uma explosão de choro. “Saí do inferno para o céu. Fiquei levitando por quatro dias, sentindo aquele prazer”, lembrou. A satisfação foi tanta que indicou a massagem para duas amigas, que até experimentaram, mas não perderam tempo em julgá-la. “Cuidado para não ficar dependente”, alertaram. Mal sabem que Marcela só não pratica mais porque não pode pagar  R$ 390 por 2h de sessão  semanalmente.  

O valor não é muito acessível, mas é proporcional ao cuidado dos terapeutas e pode ser negociado. Preços baixos costumam ser oferecidos por pessoas não especializadas. Apesar de não haver nenhuma regulamentação da profissão de terapeuta tântrico, há cursos de formação que emitem certificados amparados pela Lei nº 9.394/96 e pelo Decreto nº 5.154/04, onde se enquadram na modalidade de “cursos livres”. 

A formação de Rajan se deu há quatro anos, na Rede Metamorfose, em Itapeva (MG), onde aprendeu as bases teóricas e práticas do seu trabalho, seguindo a vertente ensinada pelo professor Deva Nishok. O terapeuta   conheceu o tantra após uma crise de depressão, o término do casamento e afastamento da antiga religião. A irmã, May Irineu, foi peça-chave do processo, pois já atuava nesse mercado anteriormente. Hoje, a dupla faz massagens “a quatro mãos”, onde tocam simultaneamente o(a) cliente. O preço dobra em relação à sessão individual: 2h custam R$ 780. 

Intimidade

Que o tantra não é sinônimo de sexo, logo se percebe pelas conversas com instrutores e pelas experiências vividas. Mas isso não significa que os ensinamentos, baseados na experiência vigente dos sentidos, não possam ser inseridos na relação a dois (ou a três e tantos outros que se propuserem). Levado pela curiosidade, o casal Anderson Domingues, 40, e Carla Domingues, 35, acrescentou a modalidade à rotina há três anos.  

Na verdade, rotina é modo de dizer. O oposto é mais verdadeiro, já que é preciso certa matemática para conciliar as agendas de ambos e escolher uma data em que possam passar um fim de semana fora de casa. Isso porque a prática exige entrega e tempo, muito tempo. Segundo o instrutor Ricardo Narhary, o sexo tântrico pode durar de duas horas até sete dias. Como não há o imperativo da penetração, o casal pode passar horas apenas se olhando ou fazendo a Sensitive Massagem. Quanto mais tempo segurarem a excitação, mais intenso será o orgasmo. Nada impede, porém, que haja uma ou mais ejaculações durante o processo. O importante é que isso não seja a finalidade.

Anderson  foi o primeiro a procurar o tantra, em 2015, quando percebeu um aumento da divulgação em Salvador. O servidor público começou com sessões individuais e, depois, participou de cursos imersivos. “A convivência melhora não só com o cônjuge. Você fica mais sensível a todas as situações. É um despertar dos sentidos”, contou. Apesar da experiência engrandecedora, lamenta  falar disso apenas aos amigos “mais chegados”. E à família?, perguntei. “Aí que é tabu. Por causa da desinformação,  associam tudo a uma grande ereção”.

Meditação 

Existem diversas técnicas para treinar o autoconhecimento e a concentração. A meditação tântrica ou “ativa” é uma delas. Nessa modalidade, o corpo é levado à exaustão, de modo que a mente esvazia-se por consequência. As sessões são divididas em três partes. A primeira consiste no Trattak, onde duas pessoas (duas clientes ou instrutor e cliente) sentam-se face a face e se olham fixamente por 15 minutos. O objetivo é “ver o divino no outro e o divino em você através do olhar do outro”, explica a terapeuta holística Prandhara Prem. A segunda parte é o Chackra breathing [respiração, em inglês], que dura cerca de 1h. Por fim, ocorre a Integração, assim como na massagem. Cada sessão individual com Prandhara custa R$ 410.

A teoria do Chackra breathing é simples: ficar em pé, respirando rápido e profundamente, com os joelhos levemente flexionados, subindo e descendo. Enquanto isso, as mãos, também em movimento, percorrem e ativam os sete chackras corporais – o primeiro fica na base da coluna, e o sétimo, acima da cabeça. Na prática, porém, tudo se complexifica. Uma sessão rápida, de meia hora, foi suficiente para que eu atingisse altos níveis de cansaço. No segundo chackra, que fica entre o genital e o umbigo, tinha certeza de que minhas pernas não aguentariam até o fim. Uma música tocava ao fundo e a terapeuta insistia que eu “botasse para fora” o que estava sentindo, tudo que podia haver de ruim. Quanto mais intensamente ela falava, mais meu corpo reagia e os olhos se enchiam d’água. Na Integração, porém, não sentia mais dor nas pernas, apenas relaxamento. 

Importante destacar sobre qual relaxamento me refiro. “Antes, quando eu ficava apenas deitada, respirando,  achava que isso era relaxar, porque era só o que conhecia. Mas, depois do tantra, descobri um outro nível de sensação. Agora, estou sempre em busca de me aproximar desse novo sentir bem”, relatou  Anna Carolina, 27.

A psicóloga já fazia yoga e outras atividades terapêuticas há anos, mas foi a meditação tântrica que lhe deu maior entendimento da sua potência corporal. Comparada com a massagem, é uma prática mais autônoma, sem o toque direto de instrutores. “Tenho separado mais tempo para mim mesma. Gasto horas me autopromovendo sensações de prazer, com toque sensitive, massagem, escalda-pé. No sexo, estou mais conectada com minhas demandas. No dia a dia, busco observar e cuidar da respiração. Paro e respiro fundo  no trabalho, no trânsito, no banho”, resumiu. 

As transformações vieram depois que Anna participou de uma oficina  na Casa Rosada, nos Barris, pela qual pagou R$ 50. A prática é mais completa que a meditação coletiva comum, que custa R$ 25. A turma começou a aula sambando e depois fez movimentos circulares com a pelve. A técnica é usada porque a dança é uma das formas de canalização da energia sexual. “Sabe aquele prazer ao mexer os quadris dançando funk? É isso”, explicou a terapeuta Prandhara. 

Depois do samba, veio a catarse. Todos gritavam simultaneamente, e Anna, que nunca o tinha feito, se viu berrando. “Sempre tive medo da proporção do meu grito, um receio de que incomodasse as pessoas, além da imagem mental que construí sobre minha fisionomia durante o grito, que me deixava com medo do julgamento”. Essa etapa foi um incentivo para a  desinibição – processo reforçado pelas atividades de autocuidado, que  têm lhe dado suporte para existir e encarar o mundo como mulher negra. 

Representação 

Foi outro corpo negro, o de Prandhara, inclusive, que lhe encorajou a experimentar o tantra pela primeira vez através da massagem. Antes, só tinha achado instrutores homens e brancos. A preocupação chegou a bater algumas vezes durante a sessão. “Volta e meia, eu abria o olho para ver se ainda era ela quem estava ali. Isso me dava um alívio”, confessou. 

Mas Anna não foi a única cliente da terapeuta que chegou até ela por conta da identificação de sexo e cor. Esse era um padrão que se repetia. “No Brasil e nos Estados Unidos [onde nasceu e viveu maior parte da vida] as mulheres negras carregam marcas dos espancamentos e estupros sofridos na escravidão. Esses traumas estão em seus DNAs”, explica a terapeuta. 

Quando ainda atuava como psicóloga em seu escritório nos EUA, o sexo feminino já era maioria nas consultas. Foi lá que percebeu outro padrão: grande parte se queixava de problemas no relacionamento. A própria Prandhara tinha bloqueios de intimidade e até mesmo um abraço lhe incomodava. Nas relações amorosas, o sentimento se acentuava. “Quando fazia sexo, não me sentia plena porque não canalizava a energia sexual, apenas gastava essa energia”.

A leitura do livro Comer, Rezar e Amar, de Elizabeth Gilbert, marcou o início de viagens por autoconhecimento. Foi para Índia, Argentina e, enfim, se apaixonou pelo Brasil, mais especificamente, por Salvador, onde decidiu morar em 2011. Volta e meia, realiza programas sensoriais em que traz mulheres norte-americanas a fim de lhes mostrar a presença da cultura africana nas terras soteropolitanas. 

Sem falar uma palavra em português, deu aulas de inglês até se formar como terapeuta tântrica na Rede Metamorfose, em 2013. Desde então, fez especializações e promoveu terapias em diversos países, como Tailândia, Portugal, Irlanda, França, Índia, EUA. Sempre que vai a um lugar, volta a convite de amigos ou da rede de contato que possui com suas clientes, que não se contentam com apenas uma sessão.  Anna Carolina resume o desejo pela repetição: “No tantra, as experiências são sobre potência. É como subir uma escada. Você sobe um degrau e pensa ‘eu consigo’, então, sobe outro. Não tem como voltar atrás”.

Veja a matéria completa na página original (UOL)




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