Sex Education: a relação entre pais sexólogos e filhos na vida real

Depoimentos mostram que a abertura para falar sobre sexo e sexualidade gera conhecimento e traz benefícios para os jovens

Sex Education: a relação entre pais sexólogos e filhos na vida real

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A série Sex Education, que teve sua segunda temporada lançada nesta sexta-feira, 17, na Netflix, retrata a relação entre Otis (Asa Butterfield) e sua mãe Jean (Gillian Anderson), uma sexóloga. A produção deixa claro que a profissão da mulher influenciou, de muitas maneiras, o jovem e o jeito dele de ser.

Otis possui, por exemplo, bloqueios em relação ao ato sexual e, geralmente, fica incomodado quando a mãe tenta falar sobre sexo com ele. Ao mesmo tempo, o protagonista acabou adquirindo muitos conhecimentos sobre o tema e os coloca em prática para ajudar amigos e colegas.

Mas quão perto Sex Education chega da realidade ao retratar a relação entre pais sexólogos e seus filhos? Foi pensando nisso que o E+ conversou com cinco sexólogos e respectivos filhos ou parentes próximos mais jovens para descobrir respostas.

Os pais sexólogos

"Você se acha mais responsável pelos traumas que você vai inserir na cabeça do seu filho." É assim que a sexóloga e psicóloga Cláudia Renzi resume como é ser mãe junto com a profissão que exerce. Ela é mãe de Manu, de dez anos. "Hoje, tento organizar para que ela não crie tabus, muito presentes no sexo. Qualquer coisa que falo vem com um medo de gerar uma situação de conflito na frente", relata a especialista.

É um consenso entre os cinco sexólogos entrevistados que a profissão e o conhecimento que ela traz sobre a temática do sexo e sexualidade possibilitam uma maior naturalidade para falar sobre o assunto, uma vez que faz parte do dia a dia deles. "[Meus filhos] Se sentem mais soltos para falar comigo sobre os assuntos [ligados ao sexo], no dia a dia já falam com naturalidade, principalmente sabendo do meu histórico de trabalho", destaca o sexólogo Abnézer Lima da Silva.

'Sex Education' mostra diversos momentos de conversas sobre sexo e sexualidade

'Sex Education' mostra diversos momentos de conversas sobre sexo e sexualidade Foto: Netflix / Divulgação

Há uma divergência, porém, sobre quem deve puxar o assunto: o pai ou o filho. "Eu que puxo o assunto, aproveito toda oportunidade que vem, mas também não precisa ser algo do nada. Ele não costuma chegar em mim puxando o assunto", relata a sexóloga e ginecologista Teresa Embiruçu, que mora com o sobrinho João, de 18 anos, há três anos.

"Ela vem perguntar, e eu sempre respondo", relata Renzi sobre a filha. A sexóloga comenta que, no geral, busca não ser invasiva, mas determinadas situações exigem uma maior proatividade. Um exemplo dado em algumas entrevistas é quando o jovem, na pré-adolescência e em torno dos nove e dez anos, entra em uma fase de experimentação, tocando o próprio corpo para tentar entendê-lo.

A sexóloga Eliany Marussi, que tem dois filhos com 15 e 25 anos, comenta que, desde que eram pequenos, quando dava banho neles, já indicava e nomeava as partes íntimas para os meninos. Quando a fase da pré-adolescência chegou, ela presenciou algumas cenas íntimas de experimentação e sempre buscou falar sobre.

Na opinião dela, todo pai e toda mãe presencia esses momentos, mas, no geral, prefere ignorá-los e não tocar no assunto. "É importante discutir para aumentar o conhecimento sobre [sexo e sexualidade], mas acaba sendo posto de lado, como se o sexo fosse algo a ser ignorado. Essa questão reflete na vida adulta também, gerando problemas", destaca a sexóloga.

"Como conheço meu filho, conheço o temperamento, a personalidade, o estado emocional, quando percebia que eles já estavam de uma forma diferente, questionava", destaca Abnézer, que tem três filhos e uma afilhada. No geral, ele prefere deixar que eles puxem o assunto. "Falo mais sobre sexo pelo que vivencio no consultório, mas tem limite", destaca Juliana Gil Guerreiro, sexóloga mãe de Giovanna, de 21 anos.

A vivência dos filhos

"Teve uma importância muito grande na formação, como pessoa e homem, fez compreender melhor a sexualidade, que sexualidade não é sexo e sexo não é o ponto principal dela. A ter uma visão abrangente da questão", diz o projetista de 35 anos Rafael, filho de Abnézer, ao ser perguntado acerca da importância de falar sobre o tema com o pai.

Todos os cinco filhos entrevistados relataram que os diálogos sempre eram acompanhados de um certo constrangimento, mas, ao mesmo tempo, valorizam o conhecimento que obtiveram sobre sexo e sexualidade, além da capacidade de olhar o assunto com naturalidade.

A série mostra alguns momentos de constrangedores entre Otis e sua mãe ao falar sobre sexualidade

A série mostra alguns momentos de constrangedores entre Otis e sua mãe ao falar sobre sexualidade Foto: Netflix / Divulgação

"Acho que é algo positivo, alguém que nunca falou nada ou nunca falou de sexo com os pais pode recorrer à internet, mas o desconhecimento é algo muito ruim, inclusive para questão de cuidados a se tomar", relata Enzo, estudante de 15 anos e filho de Eliany. O depoimento mostra que o diálogo também é importante para conhecer e evitar, por exemplo, infecções sexualmente transmissíveis ou doenças ligadas aos órgãos reprodutores.

"Ela se sente mais segura com o corpo dela, algo que eu não noto em pacientes adultos. [Falar de sexo e sexualidade] Torna a criança um adulto consciente. Sexo tem a ver com sexualidade, facilita nos colocarmos no mundo", defende Cláudia Renzi, referindo-se à filha.

A sexóloga Cláudia Renzi chegou a conversar com a filha, de dez anos, sobre como é ser filha de uam sexóloga

A sexóloga Cláudia Renzi chegou a conversar com a filha, de dez anos, sobre como é ser filha de uam sexóloga Foto: Cláudia Renzi

"Achava engraçado, mas era constrangedor", diz Giovanna, de 21 anos, filha de Juliana. A jovem relata que às vezes ficava angustiada porque a mãe tentava "tirar leite de pedra" quanto ao tema, mas reconhece a importância do diálogo: "foi totalmente essencial. Sexo não é tabu, deve-se falar abertamente. Hoje, consigo entender, não é mais uma questão de uma vergonha, ela mostrou o lado bom e ruim".

"Também fico surpreso, mas tento encarar como normal", comenta João, estudante de 18 anos e sobrinho de Teresa. "Quando tenho uma dúvida, eu pergunto para ela, até para não passar vergonha." Ele relata que às vezes fica com um pouco de vergonha quando a tia fala sobre a questão em locais mais públicos, como em um restaurante, mas ele se esforça para ver a situação de forma natural e sempre tenta falar o que sabe. A própria Teresa, na entrevista, destaca que a vergonha é algo normal e até esperada.

A proximidade com Sex Education

Perguntado sobre alguma identificação com a série, João fala de uma cena em que Otis esconde alguns objetos parecidos com órgãos sexuais que estão na casa da mãe quando um colega o visita. A tia possui alguns itens ligados à profissão dela, e ele tenta deixá-los menos expostos quando recebe amigos.

Giovanna destaca que a vergonha que Otis sente quando a mãe fala sobre sexo e sexualidade com ele, e a forma como ela é retratada, é muito semelhante a que ela costuma sentir.

Porém, os jovens contam que já existiram situações em que eles usaram o conhecimento que aprenderam com os pais para tirar dúvidas e ajudar amigos, exatamente como Otis faz (apesar de cobrar um valor para suas 'consultas'). "Acontece frequentemente, tento falar a partir do conhecimento que obtive. Quando não tenho conhecimento sobre, peço para que fale com um sexólogo ou com meu pai", diz Rafael.

Na série o protagonista usa os conhecimentos que obteve com a mãe para realizar

Na série o protagonista usa os conhecimentos que obteve com a mãe para realizar "consultas" sobre sexo e sexualidade Foto: Netflix / Divulgação

"Se sei, eu respondo; se não, repasso para minha mãe", comenta Enzo. "Meus amigos têm um convívio diferente com os pais, não conseguem falar nada sobre sexo e sexualidade com eles, então acabam falando com a minha mãe, até falam que queriam ter uma mãe igual", comenta Giovanna.

"Acho que a série retrata bem, tenta criar essa relação familiar e consegue estabelecer a profissão como algo ligado à relação deles [Otis e a mãe]", opina João. A sexóloga Teresa relata que uma vez ela levou para casa uma caixa com objetos sexuais, e o sobrinho viu, abriu e falou, em tom de surpresa: "será que você não consegue ser uma tia normal?". "Acho que a série acerta em alguns pontos, mas a relação de mãe e filho é muito individual", adiciona Enzo.

A própria Cláudia, que já viu a série, fala que a produção retrata muito bem a vivência de um sexólogo. "As pessoas têm medo de se relacionar com sexólogos", destaca, observando que o conhecimento amplo sobre sexo assusta muita gente. Outra coisa comum de acontecer é ser abordada para falar do tema fora do trabalho, por familiares e pais de colegas da filha. "É bizarro", comenta ela, rindo, mas destacando que as situações, quando envolvem a família, são bem desconfortáveis.

Os benefícios na profissão de sexólogo

Um ponto interessante levantado por alguns dos especialistas entrevistados é que o convívio com os filhos mudou para melhor o comportamento dos profissionais com os pacientes mais jovens, de mesma faixa etária.

A filha da sexóloga Cláudia Renzi fez um cartaz para ela colocar em seu escritório

A filha da sexóloga Cláudia Renzi fez um cartaz para ela colocar em seu escritório Foto: Cláudia Renzi

"Foi mais fácil falar com jovens sobre sexo porque no dia a dia já falava com minha filha, era mais natural e facilitou a entender o raciocínio dos jovens", comenta Juliana. A filha dela diz que até ensina algumas tendências na área para a mãe, como o uso de aplicativos de paquera.

"O contato com os filhos facilitou muito, eu tinha conhecimento como profissional, mas não como mãe. Havia situações em que eu tinha a base teórica, mas não tinha a experiência prática", destaca Eliany, que possui um livro acerca da importância de falar sobre sexo com os filhos. "Eu me coloco no lugar de mães que nem isso têm e a dificuldade que elas devem ter. O apavoramento que as mães enfrentam levam a que se calem. Às vezes ignoram, às vezes brigam, ao invés de discutir sobre", observa.

"A gente tem de adaptar as respostas que dá para o tamanho da curiosidade que a pessoa tem, e eu passei a aprender isso com a prática, levando em consideração a vergonha, o desconhecimento", diz Teresa.

É um consenso entre os sexólogos que a prática da mãe de Otis de ter o consultório dentro de casa está longe do ideal e pode ter sido responsável por alguns traumas que o menino carrega. "Não é de bom grado que misture as coisas, deve ter um local de atendimento separado da vida pessoal. Existe uma ética profissional, sempre respeitada", comenta Abnézer.

"Eu tenho consultório. Mas, às vezes, comento com ele de algum caso que atendi, aproveito quando acho que cabe pela faixa etária e situação e compartilho, acho positivo. A vivência [de Otis] na série é muito direta, não acho legal ter consultório dentro de casa, eu busco filtrar", observa Teresa.

Os relatos dos filhos mostram que os amigos sempre ficam surpresos quando eles falam da profissão dos pais, mas os próprios filhos já veem o exercício com mais naturalidade e sem preconceitos, sem uma erotização muito comum na sociedade. Nesse sentido, a série é muito positiva, ajudando a naturalizar um tema que sempre estará presente na vida das pessoas: o sexo e a sexualidade.

*Estagiário sob supervisão de Charlise Morais

Cláudia
Formada em Psicologia, Sexualidade Humana (USP), Renascedora, Formação Clínica em Análise Bioenergética (IABSP). Professora na área de Disfunções Sexuais, condutora do Grupo de Estudos em Terapia Tântrica para Terapeutas Tântricos, cursos individuais e em grupo, colaboradora em textos sobre sexualidade e comportamento humano para empresas [...]

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