Depoimento de M. sobre a atividade Delerium

Em mais um dia como em tantos outros que vivi eu me angustio com a vida de metas em horário comercial com folga no fim de semana. Não é possível que seja só isso, essa existência tem que significar algo mais. Mergulho em buscas, contatos, caminhos que sejam possíveis de encaixar nessa vida que tenho hoje e me apego, não posso abandonar. A vontade é ser livre, por a cara no mundo, vagar sem planos, mas o apego não deixa. Tenho a família, as responsabilidades, uma carreira. E o mais pesado, tenho a mim mesma, a gestora de projetos. Não é a hora de pular da ponte ainda. Então minha alternativa é uma fuga num fim de semana prolongado e programado. Acho que dá. E nem sei como cheguei a um vídeo de um casal que relatava a experiência na comunna. Gostei, pulei várias partes, adorei o fato de nem existirem palavras pra descrever a experiência. Entrei no site indicado, vi a programação. O vídeo do casal já me abriu muita expectativa, então, muito por cima fiquei com 3 palavras-chave na cabeça: montanha, casal, sexo. Só dá pra querer, né? é o que eu vou fazer. Valor do investimento ok, programação numa data que incluía fim de semana, totalmente possível.

Cozinhei dentro de mim a ansiedade, pensando somente dentro da minha cabeça, sem procurar muita coisa por fora. Há alguns anos eu queria muito me entregar a algo de coração aberto e pedi ajuda pra um amigo. Ele me disse: esteja em tal lugar, com trajes de banho, no dia e horário tal. Vai de coração aberto e você será bem tratada. Me segurei e quase explodi pra não fazer perguntas. Tentei deixar do lado de fora do portão todos os meus preconceitos, mas é claro, eles foram comigo. Por outro lado, pensei: Foda-se! Bora lá pra essa ayahuasca. Pois na minha cabeça, pra sair do corpo e principalmente, da mente, tem que ser forte, tem que ser droga e tem que dar um knock-out na minha necessidade de controlar tudo. Chegando lá, o evento foi uma roda de mulheres em um temazcal, uma celebração do feminino, dos ciclos, da conexão com a nossa natureza. Não foi fácil, mas me desarmou de todo arsenal de perguntas. As mulheres todas ali vulneráveis, em uma busca, e a merda de estar perdida no mundo unia a todas naquela cerimônia. A partir desta experiência e reunindo com outras tantas, entendi que meu caminho para me entregar com a intensidade que eu queria era desconhecer. Quanto menos eu soubesse, mais eu colhia.

A parte difícil era convidar meu parceiro. Pensei em tantas estratégias e na hora de falar não elaborei muito. Só comentei que queria fazer uma proposta, ele ficou desconfiado, mas curioso. Levei uma semana até compartilhar a página. Já pensei que vinha um “Não, você sabe como sou quadrado”, como veio em outras conversas. E nisso eu já pensava na estratégia 2, usando todo o poder de persuasão e síntese, como um slogan irresistível desses que te convencem a comprar um iphone de 5 mil reais: 3 dias na montanha transando comigo. Gente, quem diz não pra isso? Pra minha surpresa, não precisei apelar muito e a resposta dele foi: “vamos, mas não vai me enfiar numa roubada”. E depois a chuva de perguntas: “mas o que é? o que que tem que fazer? Tem que ficar pelado? Quem são essas pessoas? Quantas são?” E eu não tinha resposta pra nada disso, e não me importava em ter. Mas fui ler mais sobre isso e ao menos pude responder que a parte de ficar pelado é isso mesmo. Pensando do meu lado: oba, vai ser fácil arrumar a mala! e pensando no lado dele, com a possibilidade dele negar tudo. Pedi pra ele pensar, pois se esse fosse um impedimento, já não ia rolar.

Mais uns dias se passaram e ele quem veio me cobrar: já fez a inscrição? E então fizemos juntos. Ao preencher a ficha de inscrição já notei o tamanho da desconexão das nossas expectativas, ele querendo abrir o mínimo possível, falando pouco, quase nada ou “sei lá” pra maioria das questões, pensando em limites e regras e eu ultrapassando o limite de caracteres em elaborar as respostas (logo eu, a pessoa sem expectativa). Voltei à premissa de palavras-chave para descrever sobre ambos e foi. Muito prático e impulsivo, ele já comprou passagens, já se programou para liberar o fim de semana pra viagem. Achei engraçado ele dizer que teria vergonha de ficar pelado na frente dos outros. WHAT? Amado, com esse corpo lindo, barriga tanquinho, bunda atleta, pau lindo, dentro de todos os padrões estéticos possíveis, é você quem tem medo de se despir? Guardei pra mim esse comentário, pois a gente não pode ficar inflando muito o ego de um homem, pois eles ficam insuportáveis.

Foi então me despindo da expectativa (risos) que fui para o Delerium com as minhas três palavras chaves e arrastando meu homem. Pensei, bem, no pior dos casos, se for muita informação pra ele (veja bem, qualquer resistência só pode vir dele. AHAM), o pior que pode acontecer é a gente dar umas passeadas aí por essas montanhas e ficarmos juntinhos. Quando a Ratna perguntou na entrada: “Alguma restrição alimentar?” respondi que não, e já me veio na cabeça o listão de restrições não alimentares. Mas ela não pediu essa aí, guardei pra mim, mas tava tudo aqui, tanto a minha lista quanto a do meu parceiro. E já na sexta-feira, primeiro tapa na cara. Um lugar totalmente sem regras, a única regra que tinha era não transem. E eu achando que não tinha criado expectativa e superado o controle (TOMA!). Ainda bem que não precisei usar aquela minha segunda estratégia de convencimento, pois ganharia o NOBEL da mentira de 2020. Cheguei ali na porta daquele salão com todos os meus planos de contenção em caso de incêndio. Se meu amor não quisesse ficar, partiríamos, se eu sentisse que era cilada, tínhamos o contato do uber que nos trouxe, se tivesse alguma atividade que fosse além das capacidades, sou totalmente excelente em dizer não. Tirei os chinelos na entrada, mas estava eu encarnada na deusa Athena, pronta pra guerra, cheia de vontade de passar por cima de tudo. Mas não precisei remediar nenhum plano. Já naquela primeira conversa no salão, já no primeiro olhar com os facilitadores larguei meu escudo e espada ali mesmo, me despi. Não é necessário estar armado quando não tem ameaça.

Primeira noite e vivemos algo que tinha se perdido há tanto tempo, retomamos o quanto é bom e fácil se perder um no olhar e nos braços do outro. Comentei à noite que tinha sentido nele cheiros que nunca havia percebido. E veio o sábado maluco que me fez chorar, perder a noção do tempo, do espaço, de formigar a pele. Falaram de feromônios e isso se ligou com o meu comentário da noite. Veio o grounding, Reich, e tudo casou com algo que já me era familiar de alguns anos de terapia. E tudo foi se conectando de um jeito que não sei se fui em que achei Delerium ou se foi o treinamento que me achou. E veio o testemunho do meu par pra minha jornada de conhecimento e viemos juntos para o mundo sensorial. E o quadrado do meu companheiro aceitou todos os desafios bravamente, cruzou barreiras, se permitiu mergulhar. Ele não é quadrado, não há necessidade de se impor essa barra baixa pra diminuir a responsabilidade de se entregar. Ele é completo e eu também, vivemos ritmos diferentes, que se re-sincronizaram, com muito respeito pelo tempo e forma do outro. Domingo chegou com gentileza, nos convidando para vivermos o que seria a nossa construção a partir deste fim de semana. Ainda somos um casal de poucas palavras e de muito carinho. Não vou colocar mais definições sobre o que foi a experiência, pois ela ainda está sendo, o processo de digerir e assimilar está em curso. Enquanto eu vivo fica difícil saber o que é, talvez lá na frente eu consiga olhar pra esse momento e descrever o que foi.

Preciso agradecer pelo formato da condução. Somos educados para o sexo na aula de ciência, que usam termos que distanciam da nossa realidade e ainda engatam um discurso do medo conectando sexo à gravidez na adolescência e DST. Em algumas famílias, não se fala sobre isso. Nas novelas e filmes, tudo insinuado, fazendo parecer que um relacionamento é mágico e espontâneo. Nas rodas de amigo, sexo é forma de contar vantagem, é difícil abordar, o discurso vem enviesado e não necessariamente verdadeiro. E aí restam os filmes pornôs, que é nossa única chance de ver alguém transando e que criam um mundo performático, estético e paucêntrico que foge do real. Mas é com esse material que aprendemos. E aí veio este fim de semana. Uma programação mínima e fico pensando que esse material em outras mãos poderia virar um produto daqueles tipo shoptime: cansado do sexo sem graça e rotineiro? Entediado em seguir o protocolo? O dia a dia estressante tornou o sexo mais um compromisso na sua agenda? Seus problemas acabaram! Ou uma promessa egocêntrica daqueles gurus: EU criei um método infalível de superação. MOSTRO o caminho da verdade, após conhecer meus ensinamentos a sua vida será transformada. Cansei de ver homem dizendo como deve ser a mulher, padre fazendo aconselhamento de casal sendo que o cara vive sozinho, meritocratas privilegiados contando uma jornada do herói como se não tivesse nascido numa elite cheia de escolhas.

Não sei quantos outros casais conduzem este treinamento, só quero dizer que vocês fazem disso tudo algo muito especial, a forma descontraída e leve faz toda a diferença. A forma sem forma, intuitiva, orgânica, que vai sendo construída à medida que evolui, que mostra toda a vulnerabilidade de um casal em construção, abordam as dúvidas, colocam o humor do processo da descoberta, se expõe de uma forma tão crua, partilham as inseguranças que são naturais em todo processo de quebra de paradigmas. Premali falou sobre a responsabilidade com a verdade e adorei ver que o que foi dito é o que foi visto. Tem verdade sim, tem verdade MESMO! É lindo ver a demonstração, a forma gentil de como vocês se tratam e partilham a palavra, é uma dança. O que faz disso tudo um momento mágico está na forma, no convite despretensioso e fluido. O que permitiu a minha entrega ao processo foi além do objetivo do treinamento. Vocês, maestros da facilitação é que abrem os caminhos pra que a gente pise sem medo. Não há nada mais convidativo do que a não obrigação. Obrigada por vocês serem vocês.

M.

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Shantideva (Osmar)

Eu atuo com os atendimentos de terapêutica tântrica desde 2013 em Belo Horizonte. Ao longo destes anos, fui me especializando em atender pessoas que trazem registradas em seus corpos experiências traumáticas, e que portanto estão inibidas na expressão madura das emoções e na expressão do [...] Veja o perfil completo

Antar Premali

Facilita grupos de Delerium, O Caminho do Amor, Cursos de Massagem Tântrica e Renascimento nas Montanhas. Formada na capacitação para terapeutas tântricos e renascedores com Deva Nishok; Participante da formação em Renascimento com Fanny Van Laere; Participante da formação em Pulsation com Aneesha Dillon; Participante [...] Veja o perfil completo

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Instituto Metamorfose

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