Além e mais além

Além e mais além

Tantra - A Suprema Compreensão


Não devemos dar nem receber,
mas permanecer natural, porque Mahamudra
está para além de toda aceitação e rejeição.
Já que alaya não é nascida,
ninguém pode obstruí-la ou manchá-la;
conservando-se na região não-nascida
toda aparência se dissolverá em Dharmata
e o egoísmo e o orgulho se desvanecerão em nada.

A mente comum deseja tomar mais e mais do mundo, de toda parte, de cada direção e dimensão. A mente comum é uma grande receptora, uma mendiga e, por mais que mendigue, nunca está satisfeita - é infinita a mendicância. Quanto mais recebes, mais cresce o desejo, quanto mais tens, mais queres ter. O querer acaba por tornar-se uma fome obsessiva. Teu ser não tem necessidade disso, mas estás obcecado e tornas-te mais e mais infeliz, porque nada te satisfaz. Nada pode satisfazer a mente que está constantemente pedindo mais. O “mais” é febril, não é saudável e não tem fim.

A mente comum come, num sentido metafórico, não só coisas mas também pessoas. O esposo gostaria de possuir a esposa tão profundamente, como se se alimentasse dela; gostaria de digeri-la para que ela se tornasse parte dele. A mente comum é canibalística. A esposa deseja o mesmo: absorver o esposo tão completamente que dele nada sobre. Matam um ao outro. Amigos fazem o mesmo, os pais fazem o mesmo às crianças e as crianças aos pais. Todo o relacionamento da mente comum é no sentido de absorver o outro completamente. É uma espécie de alimentação.

E há a mente extraordinária, que é exatamente o oposto da mente comum. Por causa da mente comum, surgiu a mente extraordinária. As religiões ensinam algo a respeito dela. Dizem: - “Dá, partilha, oferece!” Todas as religiões ensinam, basicamente, que não deves tomar; bem ao contrário, deves dar. A caridade é pregada. E é pegada a fim de criar uma mente extraordinária.

A mente comum estará sempre em sofrimento; como o anseio por “mais” não poderá ser satisfeito, tu a encontrarás sempre deprimida. A mente extraordinária, que as religiões vêm cultivando, tu a verás sempre feliz; há nela uma certa animação, porque não está pedindo mais; pelo contrário, continua dando. Mas, bem no fundo, ainda é a mente comum.

A animação não pode vir do mais profundo ser, só pode vir da superfície. Ela deu uma volta completa e tornou-se o reverso da comum. Está de cabeça para baixo, está em shirshasan, mas permanece a mesma. Agora surge um novo desejo, mais e mais; também não há um fim para ele. Ela estará animada, mas, bem no fundo, em sua animação poderás perceber uma certa espécie de tristeza.

Encontrarás sempre essa espécie de tristeza nas pessoas religiosas. Animadas, naturalmente, porque dão, mas tristes, porque não é o bastante. Nada será o bastante.

Assim, há dois tipos de sofrimento: o sofrimento comum - e podes encontrar esses sofredores por toda parte, em todos os lugares, por toda a terra, que está cheia deles, dos que pedem sempre mais e não podem ser satisfeitos - e o outro sofrimento, o que mostra a aparência da animação. Vais encontrá-lo em sacerdotes, em monges, nos mosteiros, nos ashrams, nas pessoas que estão sempre sorrindo - mas seu sorriso leva uma certa tristeza oculta. Se observares atentamente, perceberás que também são sofredores, porque não é possível dar infinitamente, não temos para isso!

Esses são os dois tipos de pessoas facilmente encontradiças. O indivíduo religioso é o ideal pregado pelo Cristianismo, pelo Judaísmo, pelo Islamismo, pelo Hinduísmo. É melhor do que a mente comum, mas não chega a ser a última palavra em percepção. É bom ser infeliz de uma forma religiosa; melhor ser infeliz como um imperador, do que infeliz como mendigo.

Um homem muito rico estava morrendo e chamou-me para estar junto dele quando a morte chegasse; e então fui. No último momento, ele abriu os olhos e falou ao filho. Aquilo sempre estivera em sua mente; ele me havia falado a respeito muitas vezes: preocupava-se a respeito do filho, porque o rapaz era um esbanjador, amava as coisas materiais, ao passo que ele, o velho, era um homem religioso. A última frase que disse ao filho foi: - “Ouve: o dinheiro não é tudo; não podes comprar tudo com o dinheiro. Há coisas que estão para além do dinheiro; o dinheiro, por si só, não pode fazer ninguém feliz.”

O filho ouviu, e disse: - “Podes ter razão, mas, com dinheiro, uma pessoa pode escolher a tristeza que mais lhe agrade.” Podes não comprar felicidade, mas podes escolher a tristeza que mais te agrade; podes ser infeliz à tua maneira.

Um homem pobre é infeliz sem escolha, um homem rico é infeliz, mas pode fazer escolhas - essa é a única diferença. O rico escolhe sua própria infelicidade, há uma certa liberdade. Ao pobre, a infelicidade simplesmente acontece, como um fadário, como um destino - ele não tem escolha. O homem religioso escolheu seu sofrimento, por isso mostra-se animado; o homem não-religioso sofre porque não escolheu seu sofrimento. Ambos vivem no mesmo mundo do “mais”, porém o homem religioso vive como um imperador, partilhando, dando, fazendo caridade.

O Budismo, o Jainismo e o Tao criaram um terceiro tipo de mente, que não é comum nem extraordinária; que, na verdade, não é, em absoluto, mente. Para dar-lhe um nome, será bom chamá-la de “não-mente”. Portanto, tenta compreender a classificação. Mente comum e mente extraordinária - exatamente o oposto, mas ainda na mesma dimensão do mais. E, depois, a não-mente que o Budismo, o Jainismo e o Tao criaram. Que é a não-mente? É a terceira abordagem da realidade.

O Budismo e o Jainismo não pregam a caridade, pregam a indiferença. Não dizem: - “Dá!”, porque dar faz parte de tomar, é o mesmo círculo. No tomar, tomas de alguém; dando, dás a alguém: é o mesmo círculo. As dimensões não mudam, só muda a direção. O Budismo prega a indiferença, a não-dominação. A ênfase está na não-possessão e não em dar. Não deves possuir, isso é tudo. Não deves tentar possuir coisas ou pessoas; simplesmente abandona o mundo das posses. Podes dar apenas o que possuis; como podes dar o que não possuis? Podes dar apenas o que adquiriste antes; podes dar apenas o que tomaste antes - de outra maneira, como podes dar? Vens para o mundo sem nada, sem posses e sais do mundo sem posse alguma.

No mundo, podes estar em um destes dois lados: ou do lado dos que anseiam por mais e mais, por tomar mais e mais, absorver mais e mais e continuar engordando a si mesmos; ou do lado daqueles que estão sempre dando e dando, mais e mais, até se tornarem delgados, delgados, delgados. Buda diz que não deves possuir e nem escolher nenhum dos lados. Fica, simplesmente, no estado da não-posse.

Esse homem, esse terceiro tipo de homem, ao qual eu chamo o homem da não-mente, não será tão feliz e animado quanto o homem extraordinário. Será mais silencioso, mais quieto, tranqüilo; terá um profundo contentamento, mas não alegria. Não verás sequer um sorriso em seu rosto, não verás uma só estátua de Buda, ou de Mahavir sorrindo. Eles não são alegres, não são felizes. Não são infelizes, naturalmente, mas não são felizes - puseram de parte o mundo da felicidade e da infelicidade. Então, simplesmente, em repouso, indiferentes às coisas deste mundo de coisas. É a não-posse: eles estão distantes, desapegados. Isso é chamado de anashakti, desapego, indiferença. Esse homem terá certa qualidade de silêncio em torno dele, poderás sentir esse silêncio.

Tilopa, porém, vai além de todos os três. Tilopa vai além de todos os três e não é difícil classificá-lo. Mente comum, pedindo mais; mente extraordinária, tentando dar mais; não-mente, indiferente, desapegada, não dando nem recebendo. Como chamaremos à mente de Tilopa? Tilopa é o quarto tipo; e o quarto é o último e o mais alto, nada há para além dele. Não é, nem mesmo, uma não-mente, não é em absoluto uma mente, porque também na não-mente, a mente está presente, de uma forma negativa. Na não-mente, a ênfase ainda está em ser indiferente às coisas do mundo das coisas; o foco está nas coisas. Permanece indiferente, desapegado! Não estás possuindo coisas, mas precisas estar alerta para não possuir; tens de manter-te desapegado, tens de manter-te muito alerta para nada possuir. Faze disso um ponto bem claro: a ênfase ainda está nas coisas - sê indiferente ao mundo!

Tilopa diz que a ênfase deveria estar em teu próprio eu e não nas coisas. Repousa em ti mesmo, não sejas sequer indiferente ao mundo, porque a indiferença ainda é uma presença muito sutil do mundo. O foco deve estar em outro aspecto. Volta a tua vida completamente para dentro. Não te preocupes com o mundo, com as coisas, não tentes dar mais, nem sejas indiferente ao mundo. Faze como se o mundo simplesmente tivesse desaparecido. Estás centralizado em ti mesmo, estás dentro de ti, sem nada fazer. Todo o teu foco voltou-se, deu uma reviravolta total.

É como se o mundo tivesse desaparecido completamente;

não há nada a dar, nada a receber,

nada em relação a ser indiferente.

Só tu existes.

Vives em tua consciência

e ela é teu único mundo.

Nada mais existe.

Esse é o estado para além da mente e para além da não-mente. Esse é o super-supremo estado de compreensão, de entendimento. Nada há para além dele. E eu gostaria de dizer-te: nunca te satisfaças, a menos que tenhas chegado até aí. Porque o homem é infeliz, o homem comum. Pede mais e nunca pode satisfazer-se, de forma que, constantemente, a infelicidade está presente nele e vai se tornando cada vez maior, maior e maior.

O homem de mente extraordinária, aquele que a religião cultua é alegre, mas triste, bem no fundo. Mesmo em sua alegria, há uma corrente subterrânea de tristeza. É como se ele tentasse sorrir, e o sorriso não viesse. Ele parece estar posando, como se algum fotógrafo ali estivesse; tomasse certas atitudes que realmente não existe. Melhor do que o primeiro; pelo menos pode sorrir. O sorriso não é muito profundo, mas, pelo menos, existe. Mas não dura muito tempo. Depressa acabar-se-á seja o que for que ele tenha a dar, e, então, a sorridente alegria desaparecerá. Gostaria de dar mais e, então, estará na mesma aflição anterior, a do homem comum.

Talvez leve algum tempo até que o segundo homem compreenda e entenda a sua infelicidade, mas ela virá. A alegria que praticas, nas mesquitas, nos templos, nos mosteiros, não pode ser muito profunda e não pode ser um estado permanente. Não será eterna. Irás perdê-la. A própria natureza dela é tal que só pode ser momentânea. Por que apenas pode ser momentânea? Porque chegará um momento - está escrito que chegará - em que não poderás dar, porque não mais terás. Por isso é que pessoas que tenham mentes desses dois tipos habituam-se a uma acomodação. A mente comum e a mente extraordinária são da mesma qualidade - habituam-se a uma acomodação. E acomodação encontrarás em toda parte.

Primeiro um homem toma as coisas e, depois, começa a dá-las. Ou ganhará cem rúpias e dará dez por cento delas - essa é uma forma possível. Se der os cem por cento, não terá mais para dar. Continua tomando coisas e, então, distribui uma parte delas. Os maometanos dizem que devemos dar um quinto de nossa renda: sê caridoso com um quinto da tua renda. Por quê? Porque é uma acomodação. De outra maneira, nada terás para dar. Portanto, primeiro acumula e, depois, distribui. Acumula para distribuir, enriquece e, então sê caridoso; assim podes ajudar, exploras para isso. Que absurdo! Mas é a única maneira possível: a ponte entre o comum e o extraordinário.

Mesmo a mente comum pensa e acredita que, quando tiver muito, doará, ajudará as pessoas. E, naturalmente, também fará isso. Quando tiver bastante, fará um donativo a um hospital, um donativo a um centro de pesquisa do câncer, um donativo a uma biblioteca, ou a uma escola. Primeiro explora, depois doa. Primeiro rouba-te e, depois, ajuda-te. Ajudantes e ladrões não são diferentes. Na verdade, são as mesmas pessoas: com a mão direita roubam e com a mão esquerda ajudam. Pertencem à mesma dimensão.

O terceiro homem, o homem da não-mente, está em melhor situação do que os dois primeiros. Seu silêncio pode ser mais longo, mas ele não está em beatitude. Não é infeliz, não é angustiado, mas seu estado é da natureza da negatividade. É como um homem que não está doente porque os médicos nada encontram de errado nele, e não está saudável porque não sente nenhum bem-estar. Não está doente e nem saudável - está exatamente no meio de ambas as coisas. Não é infeliz, nem é feliz - é, simplesmente, indiferente. E a indiferença pode dar-te silêncio, mas o silêncio não é o suficiente. É bom, é belo, mas não podes te contentar com ele. Cedo ou tarde sentirás tédio dele.

Isso é o que acontece quando vais para as colinas. Estás demasiadamente entediado da vida da cidade - Bombaim, Londres, Nova Iorque - estás entediado do barulho, do trânsito e de toda a loucura do ir e vir; então, foges para o Himalaia. Depois de alguns dias, entretanto, - três, quatro, cinco, no máximo sete - começas a te sentir entediado do silêncio. As colinas são silenciosas, as árvores são silenciosas, o vale é silencioso - não há excitação. Começas a ansiar pela vida da cidade: o clube, os cinemas, os amigos.

O silêncio não é o bastante, porque o silêncio tem a natureza da morte, não a natureza da vida. É bom como um feriado, ou como um piquenique; entrar no silêncio é bom para saíres de tuas super-preocupações mundanas durante alguns dias, alguns momentos. Gostarás, mas não poderás gostar disso para sempre. Depressa estarás farto: depressa compreenderás que o silêncio não é o suficiente. Não é nutridor. O silêncio te protegerá do sofrimento, da felicidade, das excitações, mas não há alimento nele. É um estado negativo.

O quarto estado é o que Tilopa nos ensina - não pode ser dito mas ele tenta nos transmitir através da confiança, amor e fé que Naropa demonstra -; é um estado de beatitude, silencioso e beatífico, e tem positividade. Não é simplesmente silêncio. Não surge da indiferença pela vida, bem ao contrário, surge da mais profunda experiência do teu próprio ser. Não foi impelido pela renúncia, floresceu por ser livre e natural. As diferenças são sutis. Mas, se tentares compreender e se meditares sobre essas diferenças, todo o caminho da tua vida ficará claro e então poderás percorrê-lo facilmente.

Nunca te satisfaças antes do quarto estado, porque mesmo que te satisfaças, mais cedo ou mais tarde o descontentamento surgirá. A não ser que alcances satchitananda - a verdade absoluta, a consciência absoluta, e a beatitude absoluta - ainda não alcançaste o lar, estás ainda viajando pelo caminho. Está certo, às vezes repousas a um lado da estrada, mas não faças desse lugar um lar. A viagem tem de continuar, tens de te levantar novamente e pôr-te a andar.

Passa do primeiro estado da mente para o segundo, do segundo para o terceiro e vai além do terceiro.

Se estás no primeiro estado da mente, como noventa por cento das pessoas estão, o pensamento judaico, o islâmico, o cristão podem ser de auxílio. Eles te retirarão da armadilha comum da infelicidade - mas ainda estarás no caminho e não te iludas pensando que chegaste. Tens que ir para além, para além da alegria que traz a tristeza em si, para além tanto do dar e do receber, para além da caridade. Quem és tu, para dar? Que tens tu, para dar? Quem és tu, para ajudar? Não ajudaste nem a ti mesmo, como queres ajudar outros? Tua própria luz não está acesa e tentas acender luzes alheias? Podes, na verdade, apagá-las - teu próprio interior está escuro. Não podes ajudar, não podes dar, nada tens para dar.

O Budismo, o Jainismo, o Taoísmo, Lao-Tsé, Mahavir e Sidarta Gautama podem ajudar-te nesse caso, mas Tilopa diz que não te satisfaças nem mesmo com a indiferença, com o silêncio, com a atitude desapegada, com o distanciamento, porque nada disso ainda é real; tu ainda estás relacionado com o mundo. Tilopa tem condições para ajudar-te a ir além disso. Pode levar-te ao mais íntimo centro do teu ser. Pode ajudar-te a centralizar-te, a enraizar-te em ti mesmo, despreocupado do mundo - e nem mesmo a despreocupação existirá.

Tudo se dissolveu;

só tu permaneces em tua pureza cristalina,

só tu permaneces em absoluta inocência -

como se o mundo não tivesse surgido,

jamais tivesse estado ali.

Chegas ao ponto, nesse quarto estado de consciência, ao ponto em que não foste nascido, à fonte absoluta do ser; nem mesmo o primeiro passo foi dado ao mundo, ou então chegaste ao último, deste o último passo.

Isso é o que a gente do Zen chama ter atingido a face original. Os Mestres Zen dizem aos seus discípulos: - “Ide, encontrai vossa face, a que tínheis antes que fosseis nascidos” ou - “Ide e encontrai a face que tereis quando estiverdes mortos” (ou quando o mundo não existia, ou quando o mundo desapareceu) e atinges tua pureza original. Isso é a natureza.

Agora, tenta compreender Tilopa:

Não devemos dar nem receber

mas permanecer naturais - porque Mahamudra

está para além de toda aceitação e rejeição.

“Não devemos dar nem receber”, porque, quando dás, sais de ti mesmo, quando recebes, sais de ti mesmo. Ambas as coisas são distrações, ambas levam-te à outra. Ficas embaraçado, tua energia flui para o exterior. Que dês ou recebas, não importa - o outro se faz presente, teus olhos estão focalizados no outro e quando isso acontece tu te esqueces de ti mesmo. Isso é o que tem acontecido a todos vós. Não vos recordais de vós mesmos, porque vossos olhos tornaram-se realmente focalizados, paralisados no outro. Seja o que for que façais, o fazeis pelo outro, seja o que for que sejais, o sois pelo outro.

Mesmo que te ausentes do mundo, tua mente continua, continua. - “Que estarão as pessoas pensando de mim?” Mesmo que fujas para o Himalaia, ali sentado pensarás: - “Agora as pessoas devem estar pensando que eu me tornei um grande sábio, renunciando ao mundo; nos jornais devem estar falando de mim.” E esperarás por algum viajante solitário, algum perambulador, que te alcance e traga notícias do que está acontecendo no mundo a teu respeito.

Tu não tens tua própria face, tens, apenas, as opiniões de outros sobre ti. Alguém diz que és belo e começas a pensar que és belo. Alguém diz que és feio, tu te sentes magoado e trazes, como uma ferida, o fato de alguém ter dito “feio” - tu te tornaste feio. Tu não passas de um amontoado de opiniões alheias, tu não sabes quem és. Sabes apenas o que os outros pensam que és. E isso é estranho, porque esses outros que pensam quem tu és não conhecem a eles próprios - conhecem-se através de ti. Esse é um belo jogo: conheço-me através de ti, tu te conheces através de mim e ambos não sabemos quem somos.

O outro tornou-se importante demais, toda a tua energia se fez obcecada pelo outro. Sempre pensando nos outros, sempre recebendo algo deles e dando algo a eles.

Tilopa diz que não devemos dar nem receber. Que está ele dizendo? Está dizendo que não devemos partilhar? Não. Se tomas isso nesse sentido estás interpretando mal. Ele está dizendo que não devemos nos preocupar em dar ou receber: se podes dar naturalmente, muito bem, mas então nada há na mente, não há acumulação da idéia de que deste alguma coisa. Essa é a diferença entre dar e partilhar.

Um doador sabe que deu e gostaria que reconhecesses isso, que lhe desses o recibo: - “Sim, tu me deste.” Deves agradecer-lhe, deves ser grato pelo que ele te deu. Isso não é uma dádiva; é também uma barganha. Na verdade, tu gostarias de dar-lhe algo em troca. Mesmo que seja a tua gratidão, está certo, mas algo de que ele gostasse: isso é uma barganha, ele dá para receber. Tilopa não está dizendo que não devas partilhar. Está dizendo que não te preocupes com dar e recebes. Se tens, e se, naturalmente, acontece que tens vontade de dar, dá. Mas isso deve ser como uma partilha, um presente. Essa é a diferença entre presentear e dar.

Um presente não é uma barganha: nada é esperado, absolutamente nada, nem mesmo reconhecimento, nem mesmo um aceno de apreciação - não, nada é esperado. Se não falas nisso, não haverá ferida na pessoa que te faz o presente. Na verdade, se mencionares, ela ficará um tanto embaraçada, porque nada era esperado. Ela sente-se grata a ti, por teres apreciado o seu presente. Poderias tê-lo recusado, havia essa possibilidade. Poderias ter dito não; mas como foste gentil em não dizer não! Tu aceitaste o presente - isso é o bastante. A pessoa sente-se grata a ti. Um homem que te faz um presente sempre se sente grato porque o aceitaste. Poderias ter recusado. Isso é o bastante.

Tilopa não está dizendo que não dês, não está dizendo que não recebas, porque a vida não pode existir sem que se dê e se receba. Mesmo Tilopa tem de respirar, mesmo Tilopa tem de mendigar seu alimento, mesmo Tilopa tem que ir ao rio para beber. Tilopa tem sede, precisa de água, Tilopa tem fome, precisa de alimento, Tilopa sente-se sufocado num aposento acanhado e sai para respirar profundamente. Está recebendo da vida a cada momento - não podemos existir sem receber. Há quem tenha tentado, mas essas pessoas não são naturais, são o supra-sumo do egoísmo.

Os egoístas sempre tentam ser independentes em tudo. Os egoístas sempre tentam existir como se nada precisassem de ninguém. Isso é loucura, é absurdo! Tilopa não pode fazer tal coisa. Ele é um homem muito, mas muito natural - não encontrarás homem mais natural do que Tilopa. E se compreendes a natureza, ficarás surpreendido ao encontrar, ao descobrir um fato extremamente elementar, que é o seguinte: ninguém é dependente, ninguém é independente - toda a gente é interdependente. Ninguém pode reivindicar: “Eu sou independente.” Isso é tolice! Não podes existir por um só momento em tua independência. E ninguém é absolutamente dependente.

Essas duas polaridades não existem. Quem parece dependente também é independente e quem parece independente é também dependente. A vida é uma interdependência, é uma partilha mútua. Mesmo o imperador depende de seus escravos; e até os escravos não dependem do imperador - pelo menos podem suicidar-se, pelo menos essa independência têm.

O absoluto não existe aqui. A vida existe na relatividade. Como é natural, Tilopa sabe disso. Prescreve a forma natural - como não poderia fazê-lo? Sabe que a vida é dar e receber. Tu partilhas, mas não deves preocupar-te com isso, não deves pensar nisso - deves deixar que isso aconteça. Deixar acontecer é totalmente diferente, então nem pedes mais do que podes receber nem pedes para dar mais do que podes dar. Simplesmente, dás o que naturalmente pode ser dado, simplesmente recebes o que naturalmente pode ser recebido. Não te sentes obrigado por ninguém e não fazes ninguém sentir-se obrigado por ti. Sabes apenas que a vida é uma interdependência.

Existimos mutuamente, somos membros uns dos outros.

A consciência é um vasto oceano e ninguém é uma ilha.

Nós nos encontramos e nos fundimos uns nos outros.

Não há fronteiras.

Todas as fronteiras são falsas.

Isso Tilopa sabe - então, que diz ele?

Não devemos dar nem receber, mas permanecer naturais...

No momento em que pensas que recebeste tu deixas de ser natural. Receber está certo, mas pensar que recebeste torna-te desnatural. Dar é belo, mas no momento em que pensas que deste, o gesto torna-se feio, tu deixas de ser natural. Dás, simplesmente porque não podes evitar: tens, então dás; tens de dar. Recebes, simplesmente porque não podes evitar isso: és parte do Todo. Mas não há ego tão natural criado através de receber ou através de dar - esse é o ponto a ser compreendido. Tu nem acumulas nem renuncias - tu permaneces natural, simplesmente.

Se as coisas vem ter contigo, tu as aprecias. Se tens mais e o mais se torna uma carga, tu partilhas. Trata-se apenas de um profundo equilíbrio, tu apenas permaneces natural. Não apegar-se a nada, não renunciar; nem sentimento de posse, nem sentimento de não-posse. Repara nos animais, nos pássaros: não recebem nem dão. Todos gozam o Todo, do Todo todos partilham, no Todo todos partilham. Os pássaros, as árvores, os animais existem naturalmente. O homem é o único animal antinatural - por isso é que a religião é necessária.

Os animais não precisam de religião alguma, os pássaros não precisam de religião alguma - porque não são antinaturais. Só o homem precisa de religião. E quanto mais o homem se torna antinatural, de mais religião necessita. Assim, lembra-te disto: quanto mais uma sociedade se torna desnatural, tecnológica, mais religião será necessária.

As pessoas me perguntam por que na América há tanta procura de religião, tanta agitação, tanta busca. Porque a América é o país menos natural destes dias, o mais tecnológico, o mais técnico. Criou-se uma tecnocracia e tudo tornou-se antinatural. Teu ser íntimo tem sede de liberdade em relação à tecnologia. Teu ser íntimo tem sede do natural e toda a tua sociedade tornou-se antinatural, mais culta, mais civilizada - mais antinatural. Quando uma sociedade se torna demasiadamente culta, a religião aparece para equilibrar isso. É um equilíbrio sutil. Uma sociedade natural não precisa dele.

Diz Lao-Tsé: - “Ouvi dos antigos que havia um tempo em que as pessoas eram naturais, não existia religiões. Quando as pessoas eram naturais, jamais pensavam em céu nem em inferno. Quando as pessoas eram naturais, jamais pensavam em preceitos morais. Quando as pessoas eram naturais, não havia códigos nem leis.” Lao-Tsé diz que por causa da lei as pessoas fizeram-se criminosas, por causa da moralidade tornaram-se imorais e por causa de demasiada cultura... e a China conheceu demasiada cultura, nenhum outro país conheceu tanta cultura.

Confúcio fez do “como dar cultura a um homem” uma disciplina absoluta - três mil e trezentas regras de disciplina. Subitamente, Lao-Tsé surgiu para estabelecer o equilíbrio, porque Confúcio teria matado toda a sociedade - três mil e trezentas regras? - isso é demais. Faria o homem tão culto que ele desapareceria inteiramente, não seria mais um homem! Lao-Tsé aparece e atira todas as regras à poeira; diz que a única regra, a regra de ouro, é não haver regras. Isso é equilibrado. Lao-Tsé é religião, Confúcio é cultura.

A religião é necessária como um remédio, ela é medicinal. Se estás doente, precisas de remédio, quanto mais doente, naturalmente, mais remédios. Uma sociedade adoece quando o natural se perde. Um homem fica doente quando o natural é esquecido. E Tilopa é inteiramente pela naturalidade e pelo desprendimento.

Lembra-te também que o desprendimento e o natural estão sempre juntos - porque não podes tentar tão arduamente ser natural até o ponto de te tornares antinatural. Assim é que as manias são criadas. Conheci pessoas, maníacas, que fizeram algo absolutamente antinatural de um ensinamento natural. Por exemplo: é bom ter alimento orgânico, nada há de errado nisso, mas se ficares demasiadamente preocupado, tão minuciosamente preocupado que a todo momento só pensas em alimento orgânico, sem permitires nada de inorgânico ao corpo, então foste além do necessário.

Conheço pessoas que acreditam em terapia natural, naturopatia, e se tornaram tão pouco naturais através da sua naturopatia que nem podes crer como tal coisa aconteceu. E acontece. Se isso se torna um cansaço para a mente, então já se tornou desnatural. A palavra “desprendido” tem de ser constantemente lembrada, de outra maneira, tu te tornarás um maníaco, podes obter algo, mas podes fatigar-te tanto que mesmo o natural se torna antinatural.

Desprendimento e naturalidade é o que diz Tilopa e essa é a totalidade de seu ensinamento. Não está dizendo que não deves dar e não deves receber - portanto um significado diferente têm aquelas palavras.

Não devemos dar nem receber, mas permanecer naturais...

Aqui está escondida a significação: permanecer natural. Se, permanecendo natural, acontece que dês - muito bem! Se, permanecendo natural, alguém te dá algo e tu recebes, também está bem. Mas não faças disso uma profissão. Não cries ansiedade por causa disso.

... porque Mahamudra está para além de toda aceitação e rejeição.

Lao-Tsé ensina a aceitação. E Tilopa ensina algo para além da rejeição e da aceitação. Tilopa é, realmente, um dos maiores Mestres.

Tu rejeitas algo e tornas-te antinatural - isso podemos entender. Tens cólera interior e rejeitas isso por causa de ensinamentos morais e por causa das dificuldades em que a cólera te coloca - conflitos, violência. E viver com a cólera não é fácil, porque se queres viver com a cólera não podes viver com mais ninguém. Ela cria aborrecimentos e então os professores de moral ali estão, sempre prontos a ajudar-te dizendo: “Suprime isso, expulsa isso, não te encolerizes, rejeita a cólera/1” Tu começas a rejeitar.

A partir do momento em que rejeitas, começas a tornar-te antinatural, porque o que quer que tenhas foi a natureza que te deu - quem és tu para rejeitar o que ela te deu? Uma parte da mente faz o papel de mestre da outra parte da mente? - mas ambas são parte da mesma coisa. Não é possível. Podes continuar fazendo esse jogo. Mas a parte que constitui a cólera não se importa com a outra parte que está tentando suprimi-la, porque, chegado o momento, ela irrompe. Assim, não há preocupação para a parte que é cólera, a parte que é sexo, a parte que é avidez. Tu continuas lutando, desperdiçando, prendendo-te a milhões de formas e sempre permanecendo dividido, em conflito, fragmentado.

Desde que rejeitas, tornas-te antinatural. Não rejeites. Está claro, imediatamente a aceitação vem: se não rejeitas, então aceitas. Isso é sutil, delicado. Tilopa diz que mesmo na aceitação há uma rejeição, porque quando dizes: - “Sim, eu aceito”, bem no fundo já rejeitaste. De outra forma, por que dizes: - “Eu aceito?” Que necessidade há de dizer que aceitas? A aceitação só tem significado se há rejeição, de outra forma nada quer dizer.

As pessoa vêm ter comigo e dizem: “Sim, nós te aceitamos.” Eu vejo seus rostos, ouço o que estão dizendo. Sem saber o que estão fazendo elas já me rejeitaram. Estão forçando suas mentes para me aceitar e uma parte de suas mentes está rejeitando. Mesmo quando dizem “sim”, há um “não”; o próprio “sim” leva em si o “não”. O “sim” é apenas uma expressão superficial, uma decoração. Por dentro eu posso ver seu “não” vivo e aos pontapés; no entanto elas dizem “Nós aceitamos” - quando já rejeitaram.

Se não há rejeição, como podes aceitar, como podes dizer “eu aceito”? Se não há luta como podes dizer “eu me rendo”? Se podes entender isso, então uma aceitação acontece para além da rejeição e da aceitação, então uma rendição acontece para além tanto da luta como da rendição - então isso é total... porque Mahamudra está para além de toda aceitação e rejeição.

E quando permaneces simplesmente natural, nem rejeitando nem aceitando, nem lutando nem te rendendo, nem dizendo "não" nem dizendo "sim", mas permitindo coisas, então seja o que for que aconteça, acontece, não tens escolha própria. O que quer que aconteça tu simplesmente anotas que aconteceu, nada tentas modificar, nada tentas transformar. Não estás preocupado em melhorar a ti próprio, simplesmente permaneces tal qual és. Isto é muito, muito árduo para a mente, porque a mente é uma grande melhoradora.

A mente sempre diz: “Podes chegar mais alto. Podes tornar-te grande. Podes polir aqui e ali e assim te tornas de ouro puro. Melhora, transforma, transmuta, transfigura a ti mesmo!” A mente repete incessantemente: - “É possível obter mais, é possível, faze isso!” Então vem a rejeição. E quando rejeitas parte de ti mesmo, entras em profunda perturbação. Porque aquela parte é organicamente tua, tu não a podes expulsar. Podes cortar o corpo mas não podes cortar o ser, porque o ser conserva-se integral. Como podes cortar o ser? Não há espada que possa fazer tal coisa.

Se teus olhos vão contra ti, podes atirá-los fora, se tua mão comete um crime, podes cortá-la, se tuas pernas encaminham-te para o pecado, podes amputá-las - porque o corpo não é a tua pessoa, já é separado, podes cortá-lo. Mas como cortarás a tua consciência? Como cortarás o teu ser mais íntimo? Ele não tem substância, não podes cortá-lo. Ele é como um vácuo - como podes cortar o vácuo? Tua espada o atravessaria e ele permaneceria integral. Se tentares demasiadamente, tua espada pode partir-se, mas o vácuo permanecerá indiviso, não poderás cortá-lo.

Teu ser mais íntimo tem a natureza do vácuo,

é um não-eu, não tem substância.

Existe, mas não é matéria.

Não podes cortá-lo, não há possibilidade disso.

Não rejeites - mas imediatamente a mente diz: “Então está bem, aceitamos.” A mente jamais te deixa a sós. A mente segue-te, como uma sombra. Onde quer que vás a mente diz: “Está bem, eu vou contigo, só para auxiliar, como um ajudante. Quando quer que precises eu te ajudarei. Não rejeites - naturalmente, está certo! Tilopa está certo: aceita!” E se ouvires a mente, novamente cais na mesma armadilha. Rejeição e aceitação são ambas aspectos da mesma cunhagem.

Tilopa diz:

...porque Mahamudra está para além de toda a aceitação e rejeição.

Não aceites. Não rejeites. Na verdade, não há nada a fazer. Não te pedem que faças nada. Pedem-te, simplesmente, que sejas desprendido e natural: sê tu mesmo e deixa que as coisas aconteçam. O mundo inteiro está seguindo sem ti: os rios vão para o mar, as estrelas se movem, o sol levanta-se pela manhã, as estações seguem-se umas às outras, as árvores crescem, florescem e desaparecem, o Todo se está movendo sem ti - não podes deixar que tu mesmo sejas desprendido e natural e se mova com o Todo? Isso, para mim, é sannyas.

As pessoas vêm ter comigo e pedem: “Dá-nos uma disciplina definida. Tu só nos dás sannyas e nunca falas de disciplina. Que esperas que façamos?” Eu nada espero. Eu quero que sejam desprendidas e naturais. Quero que sejam o que são e deixem as coisas acontecerem - seja o que for que aconteça, seja o que for, incondicionalmente, bom ou mau, sofrimento ou felicidade, vida ou morte - o que quer que aconteça, deixem que aconteça. Não interfiram. Relaxem. Toda a existência continua e continua perfeitamente bem; por que estão preocupados com vocês?

Não há necessidade de melhorar,

não há necessidade de mudar.

Fica, apenas, desprendido e natural

e o melhoramento vem, de livre iniciativa,

as mudanças se seguem, e serás completamente transfigurado -

mas não por ti mesmo.

Se tentas isso, estás fazendo como alguém que se quer levantar puxando pelos cordões do próprio sapato. Tolice! Não tentes tal coisa. Será como um cão tentando agarrar a própria cauda. Em certas manhãs de inverno, quando o sol acaba de se erguer, podes encontrar muitos cães fazendo isso. Estão sentados, silenciosos, satisfeitos, mas, de repente, divisam a própria cauda a seu lado - e ela lhes parece tentadora. E como podem eles saber, pobres cães, que aquela cauda lhes pertence? Essa é a tua situação: no mesmo barco viajas. Vem a tentação muito forte, a cauda parece deliciosa, pode ser comida! O cão tenta, de início bem devagar e silenciosamente, a fim de que a cauda não se assuste; mas, faça ele o que fizer, a cauda simplesmente se move, cada vez para mais longe. Tem início então uma atividade febril e o cão começa a ficar alerta: “Que é que essa cauda está pensando?” Aquilo se torna um desafio. Agora ele salta e quanto mais ele salta, mais salta a cauda. O cão pode até enlouquecer.

É isso que todos os inquiridores espirituais estão fazendo a eles mesmos. Perseguindo a própria cauda, numa manhã de inverno, quando tudo é belo; preocupando-se desnecessariamente, com sua cauda. Deixem-na em paz! Sejam naturais e desprendidos - quem pode agarrar a própria cauda? Tu saltas mas a cauda salta contigo e tu te sentes frustrado. É quando vens ter comigo e dizes: - “Kundalini não se está elevando.” Que posso eu fazer? Estás caçando tua própria cauda e perdendo uma bela manhã ao fazeres isso. Poderias ter repousado com a tua cauda, silenciosamente: muitas moscas viriam, por iniciativa própria, e terias um bom desjejum. Mas, como caças a cauda, as moscas se assustam e com elas a possibilidade de um bom desjejum. Ao contrário, simplesmente esperas! Só o saber que as coisas não podem ser melhoradas já as faz o melhor que podem ser.

Tu só precisas apreciar.

Tudo está pronto para a celebração, nada falta.

Não te prendas a atividades absurdas - e aperfeiçoamento espiritual é uma das atividades mais absurdas.

...permanece natural - porque Mahamudra

Está para além de toda a aceitação e rejeição.

Já que alaya não é nascida...

Alaya é um termo budista: significa morada, a morada interior, a vacuidade interior, o céu interior.

Já que alaya não é nascida

Ninguém pode obstruí-la ou manchá-la.

Não te preocupes! Desde que teu ser íntimo nunca nasceu, não pode morrer; desde que nunca nasceu, ninguém pode manchá-lo ou obstruí-lo. É imortal! E desde que o Todo te deu vida, desde que a vida vem do Todo, como pode a parte melhorá-la? Da fonte tudo provém, deixa que a fonte forneça - e a fonte é eterna. Tu te postas desnecessariamente no caminho, tu começas a empurrar o rio que já está fluindo em direção do mar... ninguém pode obstruí-lo ou manchá-la. Tua pureza interior é absoluta! Não podes manchá-la. Essa é a essência do Tantra.

Todas as religiões dizem que precisas alcançá-la - Tantra diz que já a alcançaste.

Todas as religiões dizem que tens de trabalhar duramente para isso - Tantra diz que já estás perdendo por causa de tua dura atividade.

Por favor, relaxa um pouco; só relaxando atingirás o Inatingível.

... ninguém pode obstruí-la ou manchá-la.

Podes ter feito um milhão de coisas - não te preocupes com os carmas, porque nenhum ato teu pode manchar ou tornar impuro o teu ser interior.

Essa é a base do mito do nascimento virginal de Jesus. Não quer dizer que Maria, a mãe de Jesus, fosse virgem - é uma atitude tântrica. Em suas viagens pela Índia Jesus encontrou muitos tântricas - e compreendeu o fato de que “virgindade” não pode ser destruída, que toda criança nasce de uma virgem. Os teólogos cristãos aflingiram-se muito para provar que Jesus nascera de uma virgem. Não há necessidade disso! Toda a criança nasce de uma virgem, porque a virgindade não pode ser manchada.

Como podes manchar a virgindade? Toma dois seres, marido e mulher, ou dois amantes, movendo-se em profundo orgasmo sexual - como podes manchar com isso a virgindade? O ser interior permanece como testemunha, não é parte daquilo. Os corpos se encontram, as energias se encontram, as mentes se encontram; há um momento beatífico através disso, mas o ser interior permanece testemunha - fora daquilo. A virgindade não pode ser manchada. Ainda assim, no Ocidente se preocupam em como provar que Jesus nasceu de uma virgem.

E eu digo que nem mesmo uma só criança jamais nasceu de uma mãe que não fosse virgem. Todas as crianças são nascidas da virgindade.

A cada momento, faças o que fizeres, tu estás fora daquilo. Ação alguma deixa cicatrizes em ti, não pode deixar. E, desde que relaxes e compreendas isso, não te preocuparás sobre o que fazer, ou não fazer. Deixas as coisas tomarem seu próprio curso. Flutuas simplesmente como uma nuvem branca, sem te moveres para parte alguma, unicamente gozando o movimento. O próprio perambular é belo.

...ninguém pode obstruí-la ou manchá-la.

conservando-se na região não-nascida

toda aparência se dissolverá no Dharmata.

Dharmata significa que tudo tem sua própria natureza elementar. Se permanecer em tua morada interior, tudo aos poucos se dissolverá em seu próprio elemento natural. Tu é que és o agitador. Se permaneces dentro do teu ser, no alaya, no céu interior, naquela pureza absoluta, então, como no céu, as nuvens podem ir e vir e não deixam marcas. As ações vêm e vão, os pensamentos vêm e vão, muitas coisas acontecem, mas dentro, bem na profundidade, nada acontece.

Ali tu simplesmente és.

Só há existência ali.

As ações não chegam até lá, nem os pensamentos.

Se permaneces desprendido e natural naquela morada interior, gradualmente verás que todos os elementos se movem em sua própria natureza. O corpo é feito de cinco elementos. A terra, aos poucos, irá para a terra, o ar para o ar, o fogo para o fogo. Isso é o que acontece quando morres: cada elemento vai para seu próprio repouso - Dharmata significa a natureza elementar de todas as coisas -, tudo se move para a sua própria morada. Tu te moves para a tua própria morada e então tudo se move para a sua. Não há perturbação.

Há duas maneiras de viver e duas maneiras de morrer. Uma delas é viver como toda a gente está vivendo: mesclando-se a tudo, esquecendo completamente o céu interior. A outra forma de viver é o repouso interior e permitindo que as forças elementares façam seu próprio caminho. Quando o corpo sente fome, move-se e procura alimento.

O homem Iluminado permanece dentro da sua morada. O corpo sente fome e ele observa. O corpo começa a mover-se para saciar a fome e ele observa. O corpo encontra o alimento, sente-se saciado, ele observa. Continua observando. Já não é um ator. Nada está fazendo - não é aquele que faz. O corpo tem sede, ele observa. O corpo ergue-se e se move; são as forças elementares que trabalham por sua própria conta. Dizes, desnecessariamente: “Tenho sede!” - não tens! Estás confuso. O corpo tem sede e o corpo encontrará seu caminho. Irá para onde está a água.

Se permaneces dentro, verás tudo acontecer por si mesmo. Até as árvores encontram suas nascentes, sem ego e sem mente. As raízes se movimentam para encontrar uma nascente; às vezes movimentar-se-ão muitas centenas de pés para encontrar uma nascente. Isto tem sido uma das coisas mais espantosas para os botânicos, que não a podem explicar. Temos ali uma árvore: em direção ao norte, a cem pés de distância, há uma nascente, um pequeno manancial escondido dentro da terra. Como sabe a árvore que as raízes devem estender-se dentro da terra. Como sabe a árvore que as raízes devem estender-se para o norte e não para o sul? São cem pés de distância, de modo que nem mesmo a adivinhação é possível - e a árvore não possui mente, não tem ego. Mas, devido à existência das forças elementares, a árvore por si própria começa a lançar raízes em direção ao norte e, um dia, alcança o manancial.

A árvore se estende para o céu... Na selva africana as árvores são muito altas; têm de ser porque a floresta é tão densa que se as árvores não se elevassem muito não conseguiriam alcançar o sol, a luz, o ar. Assim, crescem cada vez mais altas, mais altas, procurando seu caminho. Até mesmo as árvores podem encontrar suas nascentes - por que tu te preocupas?

Por isso Jesus disse: - “Considera os lírios do campo que não trabalham nem fiam; nada fazem e tudo acontece.”

Quando estás no interior de tua morada, tuas forças elementares começam a funcionar em sua pureza cristalina. Não saias. O corpo sente fome, o corpo mesmo se move - e é tão belo ver o corpo movendo-se. É, realmente, uma das mais maravilhosas experiências, essa de ver o próprio corpo mover-se e encontrar a nascente ou o alimento. Há uma sede de amor e o corpo se move por si mesmo. Tu continuas sentado em tua morada quando, de repente, vês ações que não te pertencem: tu nada fazes, tu simplesmente observas.

Compreende isso e terás atingido o Inatingível. Compreende isso e compreenderás tudo o que há para compreender.

Conservando-te na região não-nascida

toda aparência se dissolverá em Dharmata

e o egoísmo e o orgulho se desvanecerão em nada.

E quando vires que as coisas estão acontecendo por si mesmas, como poderás reunir um ego, gabar-te dele?

Como poderás dizer “eu” quando a fome tem seu próprio caminho,

satisfaz a si mesma, torna-se saciedade;

quando a vida tem seu próprio caminho,

satisfaz a si própria, procura a morte e o repouso?

Quem és tu para dizer “eu sou”?

O orgulho, o eu, o egoísmo, tudo se dissolve.

Então, nada fazes,

então nada queres -

simplesmente ficas em teu ser interior

e a relva cresce por si mesma...

Tudo acontece por si mesmo.

Isso é difícil de entender, porque foste educado, condicionado; disseram-te que tens de agir, que tens de ser de ação, que tens de estar constantemente alerta, movendo-te, lutando. Foste educado em um meio que diz que tens de lutar por tua sobrevivência, pois de outra forma estarás perdido, de outra forma nada alcançarás. Foste educado com o veneno da ambição em ti. E no Ocidente, particularmente, uma palavra insensata - “força de vontade” - existe. Isso é simplesmente absurdo. Nada há que se pareça a alguma “força de vontade” - é uma fantasia, um sonho. Não há necessidade de vontade alguma. As coisas acontecem por si mesmas, isso é da sua natureza.

Isto aconteceu: O Mestre de Lin-Chi morreu. O Mestre era o homem famoso, mas Lin-Chi era ainda mais famoso do que o Mestre, porque o Mestre era homem silencioso e, através de Lin-Chi é que de fato se tornara famoso. Pois bem, o Mestre morreu - através também de Lin-Chi sabia-se que ele era um Iluminado - e milhares de pessoas se juntaram para prestar-lhe homenagem e dar-lhe o último adeus. Viram que Lin-Chi chorava, as lágrimas correndo como uma criancinha cuja mãe tivesse morrido. As pessoas não podiam acreditar naquilo porque pensavam que ele tivesse alcançado - e ali estava ele, chorando como uma criancinha. Isso é certo se a pessoa é ignorante, mas se a pessoa está Acordada, e quando ela própria tem ensinado que a natureza interior é imortal, eterna, nunca morre... e então?

Uns tantos, que eram muito íntimos de Lin-Chi, vieram dizer-lhe: - “Isto não é bom, que dirá de ti o povo? Já corre um boato, as pessoas julgam que estavam erradas ao pensar que tinhas alcançado. Todo o teu prestígio está em jogo. Pára de chorar! Um homem como tu não precisa chorar.”

Lin-Chi respondeu: - “Mas que posso fazer? As lágrimas vêm! É o seu Dharmata. E quem sou eu para estancá-las? Nem rejeito nem aceito: conservo-me dentro de mim. Agora as lágrimas estão fluindo, nada pode ser feito. Se o prestígio está em jogo, que esteja. Se as pessoas pensam que não sou Iluminado, isso é com elas. Que posso eu fazer? Há muito tempo abandonei aquele que faz. Não há mais aquele que faz. Isto simplesmente acontece. Estes olhos estão chorando por sua própria iniciativa, porque não poderão mais ver o Mestre - e ele era alimento para estes olhos, eles vivam desse alimento. Sei muito bem que a alma é eterna, que ninguém jamais morre, mas como ensinarei isso a estes olhos? Que lhes direi? Eles não ouvem, não têm ouvidos. Como ensinar a estes olhos que não chorem, não lacrimejem, que a vida é eterna? E quem sou eu? Isso é assunto deles. Se têm vontade de chorar, que chorem.”

Permanecer desprendido e natural significa isto: as coisas acontecem, mas tu não és o agente. Nem aceitando, nem rejeitando, o egoísmo se dissolve. O próprio conceito da força de vontade torna-se vazio e impotente, murcha, simplesmente, e o orgulho se desvanece em nada.

É difícil entender uma pessoa Iluminada. Não há conceitos que ajudem. Que pensas de Lin-Chi? Ele diz: - “Eu sei, mas os olhos estão chorando, deixemos que chorem, eles se sentirão relaxados. Não mais poderão ver esse homem; esse corpo logo será cremado e eles se sentem nutridos por ele; não conhecem nenhuma outra beleza senão a deste homem, não conhecem outra graça. Viveram muito tempo sendo nutridos por esse homem, pela sua figura, pelo seu corpo. Agora, é natural, sentem-se sedentos, esfaimados; agora, naturalmente, sentem que o próprio chão está desaparecendo sob eles - e estão chorando!”

Um homem natural apenas senta-se em seu próprio interior e deixa que as coisas aconteçam!

Ele não “faz”.

E Tilopa diz que, só então, Mahamudra aparece,

o último, o realmente último orgasmo com a Existência.

Então, não mais está separado.

Então, teu céu interior tornou-se um com o céu exterior.

Não há dois céus, agora, só há um céu.

– OSHO

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