Feromônios, ejaculação e dobrinhas: o que a pornografia não nos contou

Feromônios, ejaculação e dobrinhas: o que a pornografia não nos contou

publicado por Mateus Rodrigues

Homens em Conexão

com Vitor Shiv

Na verdade, a pornografia nos educou muito pouco, muito embora tenha sido nossa principal professora; ou quem sabe nos ensinou muito, mas ensinou mal. De qualquer maneira, não vamos falar de pornografia, mas daquilo que ela não nos contou. Afinal, o que feromônio, ejaculação e “dobrinhas” têm em comum? A nossa aposta é que têm a chave a uma nova forma de entender (e viver) o sexo e a sexualidade.

Dessa vez conversamos com ninguém menos que Vitor Shiv. Ele que é personalidade já famigerada entre os homens que estiveram no nosso último Grande Encontro dado a sua proposta no mínimo inesperada de nos apresentarmos pelos nossos… bem, pelos nossos paus. Mas saiba que não foi de sacanagem, afinal Vitor é terapeuta e reeducador corporal e sexual, com uma formação que se acumula desde 2012 e que é mais extensa do que essa breve apresentação nos permite listar. O link para o currículo completo de nosso convidado estará ao fim do texto. Vamos ao que interessa!

Vitor, parece que os homens, especialmente os héteros, têm uma sexualidade bem mais frágil em comparação às mulheres, o que você acha disso?

Há uma verdade nisso… Existe, realmente, uma fragilidade gerada pela grande cobrança que há na figura do “macho-alfa”. Diante de uma sociedade extremamente machista e heteronormativa – aquela ideia de que só relacionamentos héteros são normais ou corretos -, se cria um grande peso com relação àquilo que nos cabe. Além disso, temos hoje uma educação sexual muito mal estruturada. Pelas aulinhas da tia de biologia a gente aprende que os meninos têm pênis e as meninas têm vagina; que o espermatozóide produzido pelos testículos fecunda o óvulo. Mas, como fica a questão do prazer?

Acabou que esse trabalho de educar sobre o prazer sobrou para pornografia, que cria uma série de fantasias e estereótipos do que deve ser um orgasmo e o caminho de uma performance sexual mirabolante para se chegar a isso. O resultado disso tudo tende a ser bem catastrófico. Por exemplo, a questão da virilidade, que é construída sobre a figura simbólica do pênis ereto e que consequentemente gera todo um conjunto de ansiedades, expectativas e frustrações com respeito ao que é esse poder viril. Só que não é assim que a sexualidade e o prazer funcionam para o homem.

Eu acredito que só vamos conseguir fortalecer nossa sexualidade a partir do momento em que cada homem se inteirar plenamente do seu corpo e das suas possibilidades e potencialidade sensoriais. Depois que passarmos a usufruir a nossa sexualidade com liberdade e consciência, ela deixará de ser um peso e se tornará leve – como é para ser.

Falando em explorar nossas possibilidades de prazer, tem uma parte do corpo masculino que para muitos homens é pouquíssima explorada; talvez por isso mesmo ela é capaz de desestruturar e aterrorizar todo o edifício da masculinidade. Estamos falamos do cú. Como você vê a relação que os homens têm com essa região e a dificuldade de explorar outras áreas na prática sexual?

Olha, quando falamos de regiões erógenas a tendência é pensar logo na genital. Podemos até pensar nos mamilos ou no pescoço, mas quando se fala no fatídico cú normalmente vem um certo terror, que especialmente nos homens héteros dispara uma série de medos e receios.

Há alguns estudos psicossomáticos, ou seja, a relação entre os fatores psicológicos e os registros que eles causam no corpo, que mostram como nessa região, o ânus, independente de gênero ou orientação, são somatizadas especialmente três emoções muito densas: a culpa, o medo e a vergonha. Podemos, por exemplo, pensar na vergonha de sentir prazer nessa região, na culpa de ter sofrido um abuso sexual, no medo de não ser aceito. Tudo isso vai gerando um peso somático que fica registrado nesse pequeno orifício.

Obra de arte sobre sensação, corpo e prazer
Inacheve, Pavel Tchelitchew, 1957

Mas falando em termos de prazer, nós temos, na região da borda anal, cerca de duas mil terminações nervosas. Para termos um comparativo, a glande do pênis tem cerca de quatro mil. Isso sem falar na próstata, saco escrotal e períneo. Então, temos um ganho bem sensível se juntarmos essas duas regiões.

Há de fato toda essa série de registros que realmente prejudicam a forma do homem perceber a inteireza do seu corpo e do seu prazer. Mas, assim como o processo de masturbação leva o homem a desenvolver autoconhecimento a respeito do seu pênis, o estímulo anal, mesmo externo, gera uma percepção e uma ativação considerável do prazer nessa área.

Porque veja, é pelas nossas referências sensoriais e vivenciais que vamos construindo uma espécie de caminho pro prazer percorrer no corpo. Um caminho que começa com uma trilha bem fechada, que daqui a pouco vira uma estradinha de chão e por fim uma via pavimentada. Progressivamente, o prazer passa a fluir majoritariamente por aquela via e outras possibilidades ficam assim totalmente despercebidas, desativadas. Gostamos de ficar nessa via já consolidada, confortável, que é segura e conhecida, mas a humanidade está aí para provar que todos os movimentos de crescimento e evolução ocorrem com a saída desse conforto. É o famoso clichê do mundo terapêutico: “sair da zona de conforto”, mas é isso mesmo.

Então, a partir desse processo de assenhoramento do próprio prazer é que todas essas “intrigas da oposição”, esses tabus, vão sendo sanados, e muitas curas importantíssimas acontecem. Falando de homens que tiveram abuso sexual pela via anal, a questão é extremamente curativa.

Evoco uma fala tua de outro momento, “Sim, há vida após a ejaculação!”. É muito comum escutarmos que depois que o homem ejacula o jogo acabou, que não tem muito o que fazer salvo, em alguns casos, esperar um pouco. Mas sua visão é um pouco diferente, como você vê essa “vida após a ejaculação”?

Bem, primeiro há uma vasta tradição, de várias culturas, que tem esse enfoque mais patriarcal, até um pouco machista, de considerar que o ápice do prazer masculino é a ejaculação. Daí várias técnicas e filosofias defendem que, energeticamente falando, a ejaculação é uma perda, pois se trata do tal sangue branco… Tem até umas pessoas que dizem começar a contagem regressiva da vida no momento em que cara ejaculou pela primeira vez.

Enfim, muita gente entra nessa neura e essa pode ser uma das causas da ejaculação retardada, que é uma disfunção sexual onde o homem, mesmo querendo, tem dificuldade de ejacular. São casos em que o corpo criou uma pressão tão grande para reter o sêmen que a liberação não se consuma.

A linha mais antiga do tantra se estrutura em três pilares que ajudam a entender a minha perspectiva com mais clareza. O tantra antigo era matriarcal, sensorial e desrepressor. A partir do momento que a gente consegue entrar nesse espaço de acolhimento, toda a rigidez e controle tendem a ser superados pela plena consciência em apenas ser você e reconhecer o sagrado nisso.

Eu li uma coisa a respeito dessa questão que me chamou muito a atenção sobre a questão dos feromônios, que para mim faz muito mais sentido do que o famoso “tenho que segurar”. Veja, todas as técnicas tântricas que acontecem em um trabalho de casal vão fazer com que ocorra uma maior produção de feromônios. Assim, todo aquele “link” que geralmente a gente tem no começo de relação tende a se reativar. Isso fica bem claro, por exemplo, quando um casal tem dificuldade em ter uma relação sexual entre si mas não tem dificuldade alguma quando as têm com pessoas fora da relação. O cara que estava com problema de ereção de repente não tem mais. O que é isso? Feromônio!

A partir do momento em que você começa a perceber mais sutilmente como o feromônio age no corpo – e alcançar essa percepção envolve uma série de exercícios – tudo fica muito mais fluido.

O feromônio é uma coisa muito visível no mundo animal. Veja as formigas: através do feromônio elas demarcam um caminho que todas passam a segui-lo corretamente; fica uma fila bem bonitinha e ordenada. Ou quando se tem uma situação de conflito, em que o formigueiro é atacado, elas liberam um feromônio específico que sinaliza para as outras formigas a situação de perigo. Tudo isso está no nível químico. E, claro, algo mais temático, que são os períodos de cio em certos animais. É a mesma coisa.

Além disso, também há a influência da “ditadura do pau duro”. O cara tem que manter a ereção a qualquer custo e o sexo sem ereção se torna inimaginável. Além de ter de segurar a ejaculação para “gozar” junto com a parceira, ou parceiro. Com isso, quando ocorre a ejaculação, acabou… Vira para o lado e dorme…. Veste a roupa e vai embora….

Mas não precisa ser assim, se você estiver excitado e conectado com essa carga feromonial, a ejaculação torna-se um mero detalhe. Sem dizer que o homem pode desenvolver a capacidade de sustentar a ereção, mesmo depois de ejacular, e se livrar da chamada Fase ou Período de Refração.

Essa é uma capacidade que todos nós temos, basta desenvolver. As pessoas ditas mais sexualizadas ou com a energia sexual mais alta tendem a ter essa carga feromonial mais intensa. Mas independentemente de qualquer condição, todo mundo pode trabalhar e se exercitar para poder chegar a esse nível de percepção. Então, vamo lá gente, pro infinito e além! É uma das grandes virtudes do ser humano: enquanto buscar crescer e evoluir, não há limites!

Então você está dizendo que não necessariamente os homens tem essa baixa energética após a ejaculação? O homem pode ejacular e continuar “no pique”?

Isso. Imagina que o gráfico da excitação masculina seja uma curva ascendente que chega no pico com a ejaculação e de repente cai. O tempo que ela fica lá em baixo para então começar a subir de novo seria a fase de refração. Já o gráfico orgástico feminino é algo mais constante, com mais ondulações. É mais comum para mulher vivenciar os chamados orgasmos de vale, ou múltiplos, enquanto pro homem é mais comum os orgasmos de pico. Se o homem tem a percepção e a consciência sobre o próprio corpo bem trabalhada, torna-se possível sustentar a excitação por mais tempo. Mesmo tendo esse pico, e uma natural baixa posterior, ele consegue continuar.

Isso é muito legal porque você descobre outras possibilidades, como sustentar a ereção e continuar com a penetração, ter orgasmo sem ejacular, ejacular com orgasmo e sem ereção, além de outras mirabolâncias. Como tudo na vida que envolve o corpo, a gente tem que realmente treinar para poder desenvolver essas capacidades.

Você falou que há certos exercícios que podemos fazer para aumentar a produção de feromônio. Diga logo que exercícios são esses!!!

Claro, são coisas muito simples!

É muito importante despertar e afinar nossa percepção sensorial. Pra isso você pode começar fazendo um escaneamento do seu próprio corpo pelo toque. A produção e liberação de feromônio ocorre onde temos maior concentração de tecido ganglionar, geralmente onde estão as dobrinhas. Então, tenha especial atenção na região das costelas, entre os dedos, atrás dos joelhos, cotovelos, axilas, virilhas, lábios, orelha, pescoço… Todas essas regiões em que é possível ter alguma dobra são locais onde o feromônio tende a ser mais intensamente secretado.

Depois faça o exercício de esfregar e cheirar. É um ótimo exercício! Faça isso no períneo, na virilha, na genital. Às vezes a gente sente nojo do próprio cheiro, ou seja, a gente sente nojo de nós mesmos, o que não ajuda em nada. Por isso é muito importante ir se inteirando completamente daquilo que você é. A partir do momento que você sentir seu próprio cheiro – e assim o seu próprio feromônio – fica muito mais fácil devolver a sensibilidade pro cheiro de outras pessoas.

Obra de arte que expressa escaneamento corporal
Tête, Pavel Tchelitchew, 1950

É bem interessante também, no nosso caso, perceber o cheiro do próprio esperma. Enfim, todo esse processo de escaneamento dos diversos cheiros do corpo é muito positivo e ajuda muito nesse sentido.

Fazer esse exercícios depois de uma atividade física pode ser ainda mais legal. É comum algumas pessoas ficarem mais excitadas depois disso, em parte porque o suor faz com que essas regiões de secreção do feromônio fiquem mais ativas. No treinamento do Sexological Bodywork a gente comparava a sensação gerada por esse escaneamento, feito por meio do auto toque, antes e depois de uma atividade física; depois era sempre muito mais intenso. Por essas e tantas outras experiências eu tenho essa tese de que o prazer está diretamente ligado a quão eficiente o corpo produz e percebe o feromônio.

Já ouvi dizer que nossa sociedade sofre de uma mania pela hiper higienização, que implica a terminante rejeição a tudo aquilo de alguma forma parece ou lembre sujeira. O problema é que com o tempo desenvolvemos um nojo excessivo pelas nossas próprias secreções. Falo, por exemplo, do suor, que para alguns chega a ser insuportável. Você dizia a pouco sobre a relação entre o feromônio e o suor, que muitas vezes são secretados juntos. Você acha que essa aversão atrapalha a prática sexual de cada um?

Total, faz todo sentido. O ser humano ao assumir essa hiper higienização desenvolve ao mesmo tempo a negação do próprio cheiro, que por sua vez é uma forma de desconexão do corpo e, por fim, do próprio prazer. As práticas todas que falei agora há pouco são ótimas nesse sentido, pois promovem, além do contato com nossos cheiros, aquele estalo providencial que faz com que ativemos uma série de terminações nervosas, e percebamos e criemos vários outros caminhos para o prazer percorrer no corpo.

Temos a tendência a ter um prazer muito mental (psicogênico), e é preciso torná-lo mais orgânico, e aí a questão feromonial é um fator determinante! A partir do momento que ocorre essa reconexão com o próprio corpo por meio da aceitação dos seus próprios cheiros, tudo fica muito mais interessante.

Tem até um fetiche, muito comum, que se chama salirofilia, que é a atração por fluidos orgânicos que contém sal, como o suor e a saliva. É um fetiche que está certamente ligado à captação do feromônio. Outros tem gosto por cheirar roupa íntima e ficar ali viajando. Mas é lógico que o pessoal viaja, eles estão bebendo feromônio direto da fonte. Sem falar noutro fetiche um pouco mais incomum (ou não), que é o golden shower. Lógico, não é pra todo mundo, cada um se conecta com o que se sente bem, mas a partir do momento que você cria harmonia com seu próprio corpo, e de tabela com o próprio prazer, você deixa de ser refém dessa hiper higienização.

O que eu acho é que temos de respeitar todas as subjetividades. Só que pra isso as pessoas precisam se conhecer! Por isso a insistência em explorar sempre novas possibilidades, novas sensações, em promover um contato consigo mesmo, com seu corpo que é seu templo sagrado. A vida fica muito mais leve e prazerosa. E o contato íntimo consigo e com as outras pessoas não será mais motivo de tantas neuras e ansiedades!

Vitor Shiv é terapeuta e reeducador corporal e sexual, com formação em terapia tântrica, renascimento e sexological bodywork. Para conhecer melhor seu trabalho e para demais informações, basta clicar aqui ou segui-lo no insta: @vitor.tantra

O Homens em Conexão publica textos e entrevistas com o objetivo de fomentar a discussão e reflexão. O conteúdo da entrevista é de responsabilidade do entrevistado, e não necessariamente expressa a opinião do Homens em Conexão.

[Imagem da capa: Mercure, Pavel Tchelitchew, 1956]

Veja a matéria completa na página original (Homens em Conexão)




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