Ele fala em orgasmos de 15 min: conheça o guro do (neo) sexo

Ele fala em orgasmos de 15 min: conheça o guro do (neo) sexo

publicado por Fred Melo Paiva

Revista VIP

Advogados, gente do mercado financeiro, administradores de empresas, massoterapeutas, uma enfermeira, um investigador de polícia, uma ex-militante da Libelu (a Liberdade e Luta, tendência trotskista do movimento estudantil brasileiro nos anos 1970).

Havia também um estranho marido, daquele tipo voluntarioso que deseja realizar o gosto da mulher — um casal de empresários que organizam casamentos em bosques.

Esse eclético grupo de praticantes do tantra — palavrinha tesuda que até então me remetia exclusivamente ao sexo tântrico — reunia senhores e senhoras, gatinhas e cocotões.

Uma maioria escolada em grupos terapêuticos diversos, do Renascimento ao reike. Católicos, espíritas, macumbeiros.

Quase todos em busca de respostas para conflitos íntimos gerados por separações amorosas, relacionamentos desgastados, álcool, drogas.

Durante três dias, em Itapeva (MG), eu ia gozar a companhia desse pessoal, na esperança disso mesmo — gozar. Embora eu estivesse ali para fazer uma massagem, quer dizer, uma reportagem.

O encontro, organizado pelo Centro de Desenvolvimento Integral Metamorfose, chamava-se “Melting” — derretendo, em inglês. Ou fundindo.

Julguei sugestivo, visto que fundir não apenas remete ao ato sexual, como soa parecido com… funder, vamos dizer assim. Essas coisas passavam pela minha cabeça — a de cima e a de baixo — quando fomos convidados a fazer uma grande roda no salão e nos apresentarmos.

Os trabalhos seriam conduzidos por Deva Nishok, o criador do centro. “Vocês não devem tentar entender as experiências que vão vivenciar. As meditações e os exercícios trabalham a parte do cérebro incapaz de verbalizar suas sensações”, complicou Nishok.

“Eu mesmo parei de atender aos telefonemas de pessoas interessadas em participar do encontro, porque simplesmente não ficava bem seu idealizador dizendo ‘não, meu senhor, eu não sei te explicar o que vai acontecer lá’.”

Parecia instigante, mas eu me perguntava: meditações??? Trabalhar o cérebro??? Sinceramente, minha ideia era trabalhar outras partes.

Estava interessado mesmo num certo “método Deva Nishok” de massagens tântricas, cujo cardápio oferece variadas opções.

A “Sensitive” é feita apenas com carícias pelo corpo; a “Êxtase Total” é uma combinação da anterior com técnicas que chegam aos genitais; a “Yoni” (nome tântrico para vagina) trabalha o clitóris e a parte interna da dita-cuja; a “Ligam” (o dito-cujo) é capaz de provocar múltiplos orgasmos, ejaculatórios ou não, a partir da manipulação do pênis.

Existe ainda a “G-Spot”, que prometeachar e estimular o ponto G nas mulheres. E também a “P-Spot”, dedicada à próstata.

O Centro Metamorfose oferece cursos individuais e coletivos para quem quiser aprender as massagens de Nishok (R$ 1 500 para dois dias de atividades).

Pensei comigo: o “Melting” é mais barato (R$ 870) e ainda inclui o cérebro e as meditações. Concluí, otimista: vai ver que é trabalhando o todo que se chega às partes.

Quem é o guru?

Deva Nishok, de 55 anos, é um sujeito de estatura mediana, os cabelos já esbranquiçados e uma potencial carequinha — ainda assim, um tipo que em seu tempo se diria “um pão”, com seu chumacinho de barba no meio do queixo, a roupa preta e despojada na medida, o brinco de prata na orelha direita e os óculos de acetato mais modernos do que aqueles dos filmes da ditadura.

Criador do Centro Metamorfose há 17 anos, leciona o tantra original — aquele que nasceu na região da Caxemira, entre Índia e Paquistão, há cerca de 8 mil anos.

 (Centro Metamorfose/Reprodução)

Resume-se (muito basicamente) a um manual prático de meditações e massagens baseado na experiência do orgasmo, na relação com a morte e no desenvolvimento espiritual. Se você quiser causar desconforto a Deva Nishok, chame-o de mestre ou guru.

Mas, que ele não nos ouça, é a isso que se assemelha, tamanho o êxito de sua “pregação” a favor de uma nova sexualidade. Para explica-la, recorre a conhecimentos diversos: da filosofia à medicina, da psicologia à religião, do sânscrito até aquilo que, sem desmerecer ninguém, é o que nos importa — o sexo.

Carioca do Meyer, filho de um caminhoneiro “rude, sedutor e mulherengo”, iniciou-se nas artes da trepantina com uma prima de primeiro grau.

Ele só tinha 12 anos, veja você. Durante sete meses, por culpa da tia que os deixava sozinhos, instituíram uma rotina em que ora ele era o médico, ora era ela.

“Assim iniciamos uma relação altamente elaborada, em que explorávamos nossos corpos de forma sensorial e telúrica”, poetisa ele, que àquela altura ainda se chamava Tadeu Horta.

“Foi tântrico, hoje eu sei, e com uma sacerdotisa de 13 anos, veja você. Desde então me abri para a busca de outra sexualidade.” Tadeu casou-se aos 21 e fez três filhos. Sua sacerdotisa virou lésbica.

Programador visual com carreira em Manaus, onde viveu por dez anos, adquiriu certa vez uma cefaleia persistente. Curado meses depois “pela bênção de uma pessoa da Igreja Messiânica”, transformou-se de um “descrente debocha do” em um fiel que daqui a pouco estaria falando com os mortos.

Bem mais tarde, já Deva Nishok, voltaria ao tema da cefaleia. Dessa vez a vítima era uma aluna do centro que participava de uma prática em grupo. Num dos trabalhos de meditação, escapou-lhe um peido fenomenal. “Deixa sair”, recomendou Nishok. E se foi a cefaleia.

Como foi a experiência

Eu não sentia dentro de mim a necessidade de colocar nada para fora — menos ainda um flato. Mesmo assim, fomos todos convidados a nos soltar.

Começamos as atividades do dia dançando. Embora sob a luz do sol — e um tanto constrangido —, aquilo me remeteu às noitadas de outrora (além de Hair e Woodstock), quando eu conseguia sacudir meu chassi de frango até de manhã.

Como naquela época, imaginei tratar-se de um ritual preliminar – depois do que, fatalmente, eu terminaria na horizontal, sendo massageado você sabe onde.

Não foi isso o que se passou.

 (Pinterest/Reprodução)

Finda a pista de dança, fomos separados em casais, na vertical. Devíamos nos olhar fixamente e manter as pernas ligeiramente flexionadas.

Depois de 40 minutos nessa posição, o corpo começa a sentir uns tremeliques — o que, com alguma boa vontade, pode ser relacionado ao orgasmo.

Me apeguei nisso e esperei com ansiedade pelos trabalhos da noite, quando de novo fomos postos em duplas.

Pensei comigo: agora vai! Sentei num tatame diante de minha linda parceira.

Juntamos nossas mãos e, sob as ordens de Nishok, iniciamos um movimento ritmado de braços e respiração. Ela tinha os olhos muito bonitos. Mas infelizmente isso foi tudo. E massagem mesmo que é bom, nada.

A proposta de Deva

Volta o filme. Na Igreja Messiânica, Tadeu começou a flertar com o espiritismo.

Rapidamente estava falando com os mortos, e um deles — o Nono, seu sogro — recomendou que fosse morar em Vitória, onde estava parte da família de sua mulher. Foi.

Já um tanto místico e esotérico, abriu uma livraria focada nesses temas. Conheceu os textos de Osho e tornou-se terapeuta corporal especializado em Tantra.

Quando fundou o Metamorfose (primeiro um jornal, depois o centro), já se chamava Deva Nishok (“aquele que é feliz perante o divino”, em sânscrito).

Embora sua primeira mulher tivesse um “orgasmão”, o que o atraía bastante, o casamento acabou tão logo se mudaram.

Nishok casaria mais tarde com uma dentista e, depois, com uma psicóloga (uma de cada vez, ressalte-se).

Teve poucas mulheres na vida, parte delas “em atuação terapêutica”. Nunca o atraiu o sexo fortuito ou a constante variação de parceiras. Não lhe atrai o sexo que fazemos, a que ele chama de “primitivo”.

Vê algo de “mórbido” nas fantasias mais comuns, como transar na frente de outras pessoas.

O que Nishok gosta e o Metamorfose propõe é o sexo praticado em “estado de arte”, com a consciência plena de suas potencialidades espirituais e de autoconhecimento. Chama isso de “neossexo”.

O outro, “primitivo e emocional”, seria muito facilmente manipulado pelos líderes religiosos, que assim garantem o controle sobre a unidade familiar da qual dependem. “As religiões não levam em conta que o planeta está com excesso de contingente humano. Em 20 ou 30 anos, vão faltar os recursos essenciais”, profetisa Nishok.

“Como a base dessa expansão está no sexo, eu vou gastar esse pouco tempo que temos tentando educar as pessoas para uma nova relação com a sua sexualidade — mais prazerosa e consciente.”

Oxalá goze sucesso, como já goza na função de empresário — o centro opera hoje em sete capitais, seus 60 terapeutas viajam por todo o Brasil, Lisboa, Viena, Frankfurt, Barcelona.

Da minha parte estava preocupado com a repercussão: sem gozar uma única vez em três dias de Tantra, o que eu ia dizer lá em casa? Em todo o caso, ainda tinha algumas horas pela frente.

Deitado no chão, deveria respirar fundo enquanto uma outra participante trabalharia meus chacras. Fechei os olhos e fiquei esperando, torcendo para que esse negócio de trabalhar os chacras contemplasse finalmente a manipulação de algo mais.

 (Pinterest/Reprodução)

Mantive a respiração forte, como mandava Nishok. Inspirava e expirava pela boca em ritmo constante. De repente um formigamento foi tomando conta do meu corpo. Senti uma certa confusão mental.

A imagem da minha mulher (a minha esposa, sim, eu tenho uma) me veio à mente.

Senti por ela um grande amor. Apareceu então a minha avó — e eu chorei de novo a sua morte. “Deixa vir”, me disse Nishok, a exemplo daquele flato. Ao término da sessão, tive de dar o meu depoimento. As outras pessoas tinham visto “o divino”.

Um senhor, macaco velho nos cursos do Metamorfose, mencionou sensação parecida com os orgasmos de 15 minutos que ele consegue atingir. Eu tinha ido ao encontro pensando em ver estrelas, confessei ao pessoal.

Terminei vendo a vovó. Nesse sentido, e apenas nesse, foi gozado.

*Matéria originalmente publicada na edição 339 da revista VIP.

Veja a matéria na página original (Revista VIP)




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